sexta-feira, 22 de junho de 2012

Acheron



Acheron de Sherrilyn Kenyon
Edição : 2009
Páginas: 682
Editor: Casa das Letras

” Somos os predadores da noite. Defendemos a Humanidade da destruição. Existimos para além do reino da vida. Para além do reino da morte. E somos Eternos”
“Um deus nasceu há onze mil anos. Amaldiçoado num corpo humano, Acheron teve uma vida de sofrimento.
A sua morte humana originou um horror indescritível que quase destruiu a Terra. Trazido de volta contra a sua vontade, tornou-se o único defensor da humanidade. Só que não foi assim tão simples….
Durante séculos, lutou pela nossa sobrevivência e escondeu um passado que não desejava revelar. Agora, tanto a sua sobrevivência, como a nossa, dependem da única mulher que o ameaça. Os velhos inimigos estão a despertar e a unir-se para matá-los- aos dois. “


Excerto( 1ª parte):
9 de Maio de 9548, a.c
“- Matem aquele bebé!
A ordem furiosa de Archon ecoou nos ouvidos de Apollymi à medida que ela voava atráves dos salões de mármore de Katoteros. Um vento feroz soprava desde o corredor, empurrando o vestido preto contra o seu corpo grávido e enrolhando-lhe o cabelo, de um loiro quase barnco, em espirais de gravinhas. Quatro dos seus demónios corriam atrás dela, protegendo-a dos outros deuses que estavam mais do que desejosos de cumprir as ordens de Archon.
Apollymi e os seus demónios Charonte  já tinham eliminado metade da sua defesa do panteão. E ela estava pronta para matar o resto. Não levariam o seu bebé!
A traição ardia-lhe  profundamente no coração. Desde o momento da sua união que fora honesta com o marido. Até quando soubera que Archon lhe tinha sido infiel, Apollymi amara-o e acolhera os seus bastardos em casa. Agora, ele queria a vida do seu filho ainda não nascido.Como era capaz? Durante séculos ela tentara conceber o filho de Archon- foi tudo o que sempre quisera. Um bebé seu. Mas, devido á profecia de três rapariguinhas- as invejosas bastardas de Archon-, o seu filho tinha de ser sacrificado e morto. E por causa de quê? De palavras que aquelas fedelhas haviam proferido? Nunca.
Este era o seu bebé.Dela! E Apollymi mataria qualquer deus da Atlântica para ficar com ele.
- Basi!- gritou para a  sobrinha viesse ao seu encontro.
Basi apareceu subitamente no corredor diante de Apollymi e cambaleou até se agarrar à parede. Para quem era a deusa do excesso, estava num raro momento de sobriedade- o que encaixava perfeitamente no plano de Apollymi. Basi deu um soluço e riu.
- Precisa de mim, tiazinha? A propósito, porque estão todos tão zangados? Perdi alguma coisa importante?
Apollymi agarrou-a pelo pulso e teletransportou as duas para fora de Katoteros, onde os deuses da Atlântica se tinham estabelecido, até ao reino infernal de Kalosis, que o seu irmão governava. Apollymi nascera neste lugar húmido e proibido. Era o único reino que assustava verdadeiramnete Archon. Mesmo com todo o seu poder, ele sabia que a escuridão residia onde Apollymi reinava em absoluto. Aqui, com os poderes fortificados, ela poderia destruí-lo.
Enquanto deusa da morte, da destruição e da guerra. Apollymi mantinha um quarto no palácio escuro e opulento do irmão, para se lembrar da sua posição. Era para onde tinha levado Basi. Fechou as portas e as janelas do quarto antes de convocar os seus dois demónios mais fiéis e protectores.
- Xiamara, Xedrix, preciso de vocês.
Os demónios, que habitam em Apollymi como tatuagens, atravessaram o seu corpo e puseram-se diante dela. Naquela sua encarnação, o tom  de pele, sempre em mudança, de Xiamara aparesentava-se marmoreado em tons de vermelho e branco. Um longo cabelo negro moldava-lhe a cara de duende, onde grandes olhos vermelhos brilhavam com preocupação. O filho de Xiamara, Xedrix, partilhava as feições da mãe, mas sua pele estava marmoreada em tons de vermelho e laranja, algo que acontecia sempre que ficava nervoso.
-De que necessitais,akra? – perguntou Xiamara, tratando Apollymi com o termo da Atlântica para senhora ou mestre. Ela não fazia ideia por que razão Xiamara insistia em chamá-la de akra quando a sua relação era mais de irmãs do que ama e serva.
-Guardem este quarto de todos.Mesmo que seja o próprio Archon a exigir entrar, vocês matam-no.Percebido?
-O vosso desejo é o nosso, akra. Ninguém vos incomodará.
-Os chifres deles têm de condizer com as asas?- perguntou Basi, enquanto girava à volta do poste da cama com o olhar pousado nos demónios.- Quer dizer, a sério, como são tão coloridos, podiam ter mais variedade. Acho que o Xedrix ficava melhor se os seus cornos fossem cor de laranja.
Apollymi ignorou-a. Não tinha tempo para estupidez de Basi. Não, se quisesse salavar a vida do filho. Ela desejava-o e estava disposta a fazer tido por ele. Tudo.
O seu coração batia com toda a força. Tirou o seu punhal altante da gaveta dos vestidos e segurou-o nas mãos. O cabo de ouro era gelo contra a sua pele.Rosas pretas e ossos entrelaçados apareciam gravados até A`ponta da lâmina de ferro que brilhava na luz sombria. Era um punhal feito para tirar vidas.Hoje, seria usado para dar à luz uma.
Apollymi estremeceu ao pensar no que estava para vir, mas não tinha alternativa.Fechou os olhos, agarrando com firmeza o punhal gelado, e tentou não chorar,mas uma lágrima escorreu do canto do seu olho. Basta!, disse a si própria, enquanto soluçava furiosamente.Era tempo de agir e não de ceder a sentimentalismos. O filho precisava dela A sua mão tremia de fúria e medo. Seguiu em direcção à cama e deitou-se.Puxou o vetsido para cima, expondo a barriga.Percorreu com a mão o ventre inchado, onde o filho esperava, protegido e ao memso tempo em perigo. Nunca mais estaria tão próxima dele como aquele momento.Nunca mais o sentiria dar pontapés e mexer-se sem descanso enquanto ela sorria com paciente ternura. Estava prestes a separar-se dele, mesmo sabendo que ainda não chegara a hora de Apostolos nascer.
Mas não tinha escolha.
-Sê forte por mim, meu filho- suspirou, antes de abrir a barrifa e de o expor.
-Ah!Que nojo!- queixou.se Basi.- Eu…
-Não te mexas!- gritou-lhe Apollymi.- Sais do quarto e arranco-te o coração!
Com os olhos muito abertos, Basi imobilizou-se.
Como se adivinhasse o que ia acontecer, Xiamara apareceu ao seu lado. O demónio de ele vermelha e branca era o mais belo e leal de todos os demónios que compunham o exército de Apollymi.Num silêncio  compreensivo, Xiamara tirou o bebé de dentro da deusa  e ajudou-a a fechar a barriga.Removeu o cachecol vermelho-sangue que tinha á volta do pescoço e embrulhou Apostolos antes de lhe fazer uma vénia e de o entregar a Apollymi.
Apollymi esqueceu a dor física enquanto tomava o filho nos braços e o segurava pela primeira vez. Uma alegria imensa percorreu-lhe o corpo à medida que via que ele estava bem e vivo. Era tão pequenino, tão frágil. Perfeito e lindo. Mas, mais do que tudo, pertencia-lhe e ela amava-o de todo o coração.
-Vive por mim, Apostolos – disse Apollymi, cujas lágrimas escorriam finalmente pela cara. Eram como gelo a escorregar pela  face fria e brilhando na escuridão.- Quando chegar o momento, voltarás aqui e reclamarás o teu lugar, por direito, de rei de todos os deuses. Certificar-me-ei de que isso realmente acontece.
Depositou um beijo na fronte do bebé, ainda azul.Ele abriu os olhos para a encarar.Com uma tonalidade quente e prateada, tal como os da mãe, giravam.E continham uma sabedoria ainda mais profunda do que os dela. Seria através daqueles olhos que a humanidade reconheceria a sua divindade e o trataria como era devido. Apostolos roçou o rosto de Apollymi com um movimento rápido, como se compreendesse o que lhe estava destinado. Ela soluçou quando ele lhe tocou. Deuses, não era justo! Ele era o seu bebé. Esperara uma vida inteira por isto e agora…
-Maldito sejas, Archon! Maldito sejas! Nunca te perdoarei por isto.
Agarrou o filho fortemente contra si, não querendo largá-lo.Mas tinha de o fazer.
-Basi?- chamou de repente a sobrinha, que continuava a andar á volta do poste da cama.
-Hum?
-Leva-o.Coloca-o na barriga de uma rainha grávida.Percebeste?
Basi largou o poste e endireitou-se.
-Hum, acho que consigo fazer isso. Que tal o fedelho da rainha?
-Funde a força da vida de Apostolos com a do filho da rainha. Deixa-a saber, por oráculo, que, se o meu filho morrer, o dela terá o memso destino.
Esta decisão protegê-lo-ia mais do que qualquer outra coisa.Mas ainda havia algo a ser feito. Apollymi cortou a esfera branca do seu pescoço e pressionou.a contra o peito de Apostolos. Se alguém suspeitasse de que ele era o seu filho, ou se algum deus detectasse a sua presença no reino humano, matá-lo-iam instantaneamente. Os seus poderes teriam  de lhe ser retirados e guardados até que ele tivesse idade e força suficientes para lutar. Apollymi colocou a esfera no peito dele e ficou a olhá-lo enquanto a sua divindade passava para a esfera. O seu pequenino corpo mudou de azul para a cor pálida da pele humana. Agora estaria a salvo. Nem mesmo os deuses saberiam o que ela tinha feito. Apertando a esfera fortemente na mão, Apollymi beijou-o mais uma vez antes de o entregar à sobrinha.
-Leva-o.E não me traias, Basi.Se o fizeres, o Archon será o menor dos teus problemas.Não descansarei enquanto não tomar banho nas tuas entranhas.
Os olhos castanhos de Basi arregalaram-se, petrificados.
-Bebé na barriga. Reino humano.Não contar a ninguém e não fazer asneira. Percebido- disse, desaparecendo quase imediatamente.
Apollymi sentou-se, olhando fixamente para o lugar onde eles tinham estado. O seu coração gritava, desejando o bebé de volta. Se ao menos…
-Xiomara, segue-a e certifica-te de que ela faz o que ordenei.
O demónio fez uma vénia e desapareceu.
Com o coração destroçado, Apollymi permaneceu na sua cama ensanguentada.Queria chorar e gritar, mas para quê? Não serviria de nada. As suas lágrimas e lamentações não impediriam Archon de matar o filho.As fedelhas dele tinham-no convencido de que Apostolod destruiria o seu panteão e lhe tomaria o lugar de rei dos deuses. Então. que assim fosse. Cheia de dores no corpo, Apollymi rastejou para fora da cama.
- Xedrix?
O filho de Xiomara apareceu diante dela.
- Sim akra?
-Vai buscar uma pedra ao mar, por favor.
Ele apareceu confuso com o pedido, mas rapidamente o cumpriu.Quando regressou, Apollymi envolveu o pedregulho em roupas. Fraca devido ao nascimento do filho e da fúria e medo que sentia, pôs-se ao lado de Xedriz e apoiou o seu braço no dele.
-Leva-me até Archon.
-Tendes a certeza, akra?
Ela abanou afirmativamente a cabeça.
O demónio ajudou-a a regressar a Katoteros.Apareceram no centro do salão onde Archon permanecia com as filhas Chara e Agapa- ironicamente, as deusas da alegria e do amor. As duas tinham nascido partenogeticamente assim que Archon olhara para Apollymi. Juntas, saltaram para fora do seu peito. O seu amor por Apollymi tinha sido lendário. Até que ele o destruiu ao pedir a única coisa que ela nunca lhe daria. A vida do filho.
As feições de Archon eram perfeitas.Alto e musculado, o seu cabelo dourado brilhava na luz mais ténue. Sem dúvida, era o mais bonito dos deuses. Pena a beleza ser apenas superficial. Os seus olhos azuis contraíram-se oa ver a trouxa que Apollymi trazia nos braços.
-Finalmente recuperaste o juízo. Dá-me essa criança.
Apollymi afastou-se de Xedrix e pousou o bebé de pedra nos braços do marido.Archon olhou ameaçadoramente para ela.
- O que é isto?
-Isso é o que tu mereces, cretino, e é tudo o que receberás de mim.
Pela luz dos olhos de Archon, Apollymi soube que ele a queria agredir. Mas não se atrevia.Ambos sabiam qual dos dois era o mais forte, e não era ele. Archon apenas governava porque ela se mantinha a seu lado. Virar-se contra ela seria o último dos erros que ele podia cometer. Pela lei de Ctónia, um deus estava proibido de matar outro. Para o fazer, teria de suportar a ira de todos os outros deuses. O castigo para estas acções era imediato, brutal e irreversível.
Mesmo agora, Apollymi fazia um esforço quase sobrenatural para dar primazia ao seu pensamento racional e não às emoções. Archon sabia que, se a agredisse, tirá-la-ia do sério. Essa acção faria  com que ela esquecesse o medo que sentia dos Ctónicos e com que libertasse a sua ira contra ele. Deixaria de lhe importar quem era castigado ou quem morria…mesmo que fosse ela.
Paciência para a aranha….Apollymi recordava-se a si própria do provérbio preferido da mãe. Aguardaria o tempo que fosse necessário até que Apostolos crescesse e ficasse um homem. Então, reinaria no lugar de Archom e mostraria ao rei dos deuses o que significava o ser mais poderoso.
Pelo bem do filho, Apollymi não chatearia os caprichosos Ctónicos que poderiam muito bem juntar-se a Archon e matar o seu filho. Juntos, conseguiriam retirar-lhe os poderes para sempre e destruir Apostolos. Afinal, Archon e as filhas bastardas que tivera com a sua amante Témis tinham o poder do destino sobre tudo e todos. E, apesar da sua estupidez e do seu medo, as Moiras haviam acidentalmente amaldiçoado o seu filho.
Só isso bastava para que Apollymi quisesse matar o marido, que a olhava com um ar confuso.
- Condenar-nos-ias a todos por causa de uma criança?- perguntou Archon.
-Condenarias o meu filho por causa de três bastardas semigregas?
As narinas de Archon dilataram.
-Por uma vez, sê razoável.As miúdas não se aperceberam de que o estavam a amaldiçoar enquanto falavam. Ainda estão a aprender a usar os poderes. Tiveram  medo de que ele pudesse substitui-las nas nossas afeiçoes.Foi por isso que deram as mãos enquanto falavam dos seus medos. E, por causa disso, a sua palavra agora é lei e não pode ser desfeita. Se ele viver, nós morremos.
-Então, vocês morrem, porque ele vai viver. Eu cer
tifiquei-me disso.
Archon rugiu antes de atirar a pedra envolta em panos contra a parede. Foi ter com Agapa e Chara e começou a entoar cânticos.
O s olhos de Apollymi flamejaram ao verem o que eles estavam a fazer. Era um feitiço de aprisionamento.Para ela. E, porque uniram os seus poderes, seriam capazes de a subjugar.Mesmo assim, riu-se.Mas, principalmente, Apollymi reparou em cada um dos deuses que se juntara ao seu marido para o ajudar a prendê-la.
-Todos se vão arrepender do que fizeram hoje.Quando Apostolos regressar, todos vocês irão pagar caro.
Xedrix meteu-se entre Apollymi e os outros. Ela pôs a mão sobre o seu ombro para o impedir de atacar.
-Eles não nos vão magoar, Xedrix.Não podem.
- Não – disse Archon- mas vais permancer fechada em Kalosis até que reveles o paradeiro de Apostolos ou até que ele morra. Só assim regressarás a Katoteros.
Apollymi riu-se.
- O meu filho, quando for adulto, terá poder para vir até mim. Quando me libertar, o mundo, tal como tu o conheces, morrerá. E eu acabarei com todos. Com todos vós.
Archon abanou a cabeça.
-Nós encontrá-lo-emos. Nós matá-lo-emos.
- Falharás, e eu dançarei em cima da tua campa.
…. “

2 comentários:

  1. Olá
    Comecei a ler este livro mas não sei bem porquê parei na página 152. No momento em que ele regressa ao castelo e fica amarrado numa cama. Eu gostei do que li mas talvez numa fase mais para a frente volte a pegar nele. Até onde li considerei um bom livro para o género.
    Boas leituras;)

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    1. Este livro foi o primeiro que li desta Saga, só depois é que foi investigar quais eram os outros que estavam relacionados. Talvez por ter sido o primeiro que li, acho que é o melhor até agora. Mas ainda vão ser publicados mais...então tudo está em aberto.
      Além disso, adoro a personagem do Acheron. É um ser cativante e sobretudo muito misterioso. :) tal como o Savitar. :)

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