sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Abraço da Noite - Night Embrace



O abraço da noite de Sherrilyn Kenyon
Edição: 2010
Páginas: 384
Editor: Edições chá das cinco


«Querida leitora
A vida para mim é óptima. Tenho o meu café de Chicória, o meu beignet quente e o meu melhor amigo ao telemóvel. Depois de o sol se pôr, sou a pior coisa que percorre a noite: comando os elementos e não conheço o medo. Durante séculos, protegi os inocentes e tomei conta da humanidade, assegurando-me de que estão seguros a salvo num mundo em que nunca nada é certo. Tudo o que quero em troca é uma miúda gira num vestido vermelho, que não queira mais nada de mim para além de uma noite. Em vez disso, sou atropelado por um carro alegórico de Carnaval que me tenta transformar num animal morto à beira da estrada e conheço uma mulher que me quer salvar a vida mas não se consegue lembrar onde me pôs as calças. Vibrante e extravagante, Sunshine Runningwolf deveria ser a mulher perfeita para mim. Não quer nada mais do que esta noite, sem laços, sem compromissos a longo prazo.
Mas, sempre que olho para ela, começo a desejar concretizar sonhos que enterrei séculos atrás. Com os seus modos pouco convencionais e a sua capacidade para me surpreender, Sunshine é a única pessoa de que preciso. Mas amá-la significaria a sua morte. Fui amaldiçoado e nunca poderei conhecer a paz ou a felicidade, não enquanto o meu inimigo espera na noite para nos destruir a ambos.»
Talon dos Morrigantes


Prólogo:
" 558 D.C Glionnan
Os Tremendos incêndios que devoravam a aldeia ardiam alto na noite, lambendo o céu escuro como serpentes que se entrelaçam sobre veludo preto. O fumo erguia-se suavemente através da escuridão enevoada, acre com o cheiro a morte e vingança.
A imagem e o cheiro deviam trazer alegria a Talon.
Não traziam.
Nada lhe voltaria alguma vez a trazer alegria.
Nada.
A amarga agonia que crescia dentro de si era castradora. Debilitante. Era mais do que mesmo ele era capaz de suportar e esse pensamento era quase suficiente para o fazer rir...
Claro.
Sim, praguejou com o peso esmagador da sua dor.
Um a um tinha perdido todos os seres humanos que alguma vez tinham significado algo para si, à face da Terra.
Todos eles.
Aos sete anos de idade ficara órfão, com a pesada responsabilidade de cuidar da irmã bebé. Sem lugar para onde ir e incapaz de garantir, ele próprio, o sustento da criança pequena, regressara ao clã que fora um dia liderado pela sua mãe.
Um clã que banira ambos os seus progenitores antes de ele ter nascido.
O tio encontrava-se no primeiro ano de reinado quando Talon abriu caminho à força, até ao seu salão. Relutantemente, o rei aceitara-o, e a Ceara, mas o clã nunca o fez.
Não, até Talon os ter obrigado a isso.
Podiam não ter respondido os seus progenitores mas Talon fez com que respeitassem a sua espada e o seu temperamento; com que respeitassem a sua disponibilidade para mutilar e assassinar todos aqueles que o insultassem.
Quando chegou à idade adulta, ninguém se atrevia a troçar do seu nascimento ou a pôr em causa a memória ou a honra da sua mãe.
Erguera-se de entre as fileiras dos guerreiros e aprendera tudo o que podia sobre armas, batalhas e liderança.
No final, fora unanimemente eleito para suceder ao tio por todas as pessoas que um dia o tinham menosprezado.
Como herdeiro, Talon mantivera-se do lado direito do tio, protegendo-o incansavelmente, até que uma emboscada inimiga os apanhara desprevenidos.
Ferido e em agonia, Talon segurara o tio nos braços, enquanto Idiag falecia devido aos ferimentos.
- Protege a minha esposa e Ceara, rapaz - sussurrara-lhe o tio, antes de falecer. - Não faças com que me arrependa de te ter acolhido.
Talon prometera. Mas, apenas alguns meses depois, descobrira a tia violada e assassinada pelos seus inimigos. O corpo conspurcado e abandonado para servir de alimento aos animais.
Menos de um ano decorrido, abraçara a sua esposa, Nynia, apertando-a contra o peito enquanto, também ela, soltava o último suspiro e o deixava sozinho, para sempre privado do seu toque gentil e apaziguador.
Ela tinha sido o seu mundo.
O seu coração.
A sua alma.
Sem ela, não mais desejava viver.
De espírito quebrado e coração partido, colocara o filho nado-morto nos seus braços sem vida e enterrara-os aos dois, juntos, perto do lago onde ele e Nynia tinham brincado em crianças.
Depois, fizera conforme lhe tinham ensinado a mãe e o tio.
Sobrevivera para liderar o seu clã.
Colocando de lado a sua dor, tanto quanto lhe era possível, vivera para o bem-estar do clã.
Como capitão, derramara sangue suficiente para encher o mar revolto e, pelo seu povo, recebera na carne golpes incontáveis. Levara o seu clã à glória contra os continentais e os clãs do Norte que os tinham tentado conquistar. Com a maior parte da família morta, dera ao seu povo tudo o que tinha. A sua lealdade. O seu amor.
Oferecera, inclusivamente, a sua própria vida para os proteger dos deuses.
E, num segundo, os membros do seu clã levaram o último ser amado que lhe restava.
Ceara.
A sua querida irmãzinha que ele jurara, perante a mãe, o pai, e o tio, proteger a qualquer preço. Ceara, de cabelos dourados e sorridentes olhos cor de âmbar. Tão jovem. Tão gentil e generosa.
Para satisfazer as ambições eghoístas de um homem, o seu clã assassinara-a perante os seus olhos, enquanto ele se encontrava prostrado, atado, incapaz de os impedir.
Ela morrera gritando o seu nome, clamando pela sua ajuda.
Os seus gritos de horror ainda lhe retiniam nos ouvidos.
Depois da execução, o clã voltara-se para ele e pusera também fim à sua vida. Mas a morte de Talon não lhe trouxera alívio. Tudo o que sentira fora culpa. Culpa e necessidade de vingar as atrocidades sofridas pela sua família.
A necessidade de vingança transcendera tudo, até mesmo a morte.
- Que os deuses vos amaldiçoem a todos! - rugiu Talon à aldeia em chamas.
- Os deuses não amaldiçoam, nós amaldiçoamo-nos a nós mesmos com as nossas palavras e actos.
Talon voltou-se, rapidamente, para a voz atrás de si e viu um homem todo vetsido de preto. Erguendo-se no topo da pequena elevação, aquele homem era diferente de tudo o que alguma vez vira.
O vento noturno rodopiava em torno da figura, abrindo o manto finamente tecido enquanto ele avançava, segurando na mão esquerda um grande e retorcido bastão de guerreiro. A antiga e escura madeira de carvalho, com símbolos entalhados,estava decorada, no topo, com penas presas por um cordão de cabedal.
A luz da lua dançava sobre o cabelo etéreo, negro como azeviche, que usava preso em três longas tranças.
Os seus olhos, prateados e tremeluzentes, pareciam turbilhões de uma fantasmagórica neblina.
Aqueles olhos brilhantes eram arrepiantes e perturbadores.
Erguendo-se à altura de um gigante, Talon nunca antes tivera de levantar o olhar para encarar alguém e, no entanto, este estranho parecia do tamanho de uma montanha. Só quando o homem se aproximou é que Talon percebeu que ele media apenas mais alguns centímetros de altura e que não era tão velho como inicialmente lhe parecera. Na verdade, o seu rosto era de uma juventude perfeita, no precioso limiar entre a adolescência e a maturidade.
Até se olhar mais de perto. Ali, nos olhos do estranho, encontrava-se a sabedoria dos séculos. Não se tratava de um rapaz mas de um guerreiro que lutara arduamente e vira muitas coisas.
- Quem és tu? - perguntou Talon.
- Sou Acheron Parthenopaeus - disse, conferindo uma estranha pronúncia à língua céltica nativa de Talon, que  falava impecavelmente. - Fui enviado por Ártemis para te treinar para a tua nova vida.
A deusa grega dissera a Talon que esperasse a chegada daquele homem que vagueava pela terra desde tempos imemoriais.
- E o que me ensinarás, Feiticeiro?
- Ensinar-te-ei a matar os daemon que se alimentam dos humanos desafortunados. Ensinar-te-ei a procurar refúgio durante o dia para que os raios de sol não te matem. Mostrar-te-ei como falar sem revelares as tuas presas aos humanos e todas as outras coisas de que precisas para sobreviver.
Talon riu, amargamente, enquanto a dor lancinante o percorria uma vez mais. A ânsia e a dor eram tão grandes que mal conseguia respirar. Tudo o que queria era paz.
Era a sua família.
E eles tinham partido.
Sem eles, já não desejava sobreviver. Não, não podia viver com aquele peso no coração.
Olhou para Acheron.
- Diz-me, Feiticeiro, possuis algum feitiço que leve de mim esta agonia?
Acheron lançou-lhe um olhar duro.
- Sim, Celta. Posso mostrar-te como enterrar a dor tão profundamente dentro de ti, que não mais te incomodará. Mas não te esqueças que nada é dado sem contrapartida e nada dura para sempre. Um dia surgirá alguém que te voltará a fazer sentir e que trará consigo a dor dos séculos que viveste. Tudo o que escondeste será revelado e poder-te-á destruir, não só a ti mas a qualquer pessoa próxima a ti.
Talon ignorou a última parte. Tudo o desejava, por ora, era o dia em que o seu coração não sangrasse de dor. Um momento livre daquele tormento. E estava disposto a pagar qualquer preço.
- Tens a certeza de que não sentirei nada?
Acheron acenou.
- Só to posso ensinar se me ouvires.
- Então ensina-me bem, Feiticeiro. Ensina-me bem."

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