sexta-feira, 22 de junho de 2012

O Caçador de Sonhos - The Dream-Hunter



O Caçador de Sonhos de Sherrilyn Kenyon
Edição: 2012
Editora: Chá das Cinco
Páginas: 304
Volume: 11

Sinopse:
Condenado pelos deuses a viver para toda a eternidade sem emoções, Arikos apenas consegue sentir através dos sonhos dos outros. Durante milhares de anos vagueou pelo inconsciente humano em busca de sensações. Agora encontrou finalmente uma sonhadora cuja mente vívida é capaz de preencher o seu próprio vazio. Megeara Kafieri testemunhou a ruína do pai na sua demanda para provar a existência de Atlântida. A promessa da filha, no leito de morte do pai, de resgatar a reputação dele, trouxe-a até à Grécia, onde a jovem tenciona
provar que a mítica ilha está no local identificado pelo pai. Em vez disso, Megeara encontra um estranho a flutuar no mar – um estranho cujo rosto reconhece de muitos dos seus sonhos. O que Megeara desconhece é que Arik esconde mais segredos do que aqueles de que ela precisa para encontrar a Atlântida. Arik fez um pacto com Hades: em troca de duas semanas como mortal, ele terá de regressar ao Olimpo com uma alma mortal… a de Megeara.


Prólogo:
“SANTORINI, GRÉCIA, 1990
Completamente imóvel, Megeara Saatsakis contemplava a água do cimo da escarpa, uma água de um azul tão perfeito que era quase doloroso fitar. O ar era perfumado pelo sal, pelo azeite dos mercadores ambulantes e pela intensa luz do Sol, reproduzindo o aroma único na região.
O sol quente acariciava-lhe a pele bronzeada, enquanto a forte brisa lhe açoitava o vestido branco contra o corpo. Os navios deslizavam pelas ondas de uma maneira quase surreal, fazendo-a pensar nos tempos da sua infância,quando caminhava com o pai e a mãe por aqueles rochedos e praias, absorvendo o que signifi cava ser grego.
Era um dos cenários mais belos do mundo, e qualquer outra pessoa de vinte e quatro anos adoraria estar ali.
Só queria poder ser essa pessoa. Pelo contrário, odiava aquele lugar com um ardor quase irracional.
Para ela, a Grécia significava morte e sofrimento, uma dor atroz, e preferiria ter mil anzóis cravados no corpo a ter de voltar a pisar aquele solo outra vez. O comprido cabelo loiro que trazia recolhido num rabo-de-cavalo golpeava-lhe a pele, enquanto procurava apaziguar os seus pensamentos agitados. Mas era impossível encontrar paz.
No seu interior burilava uma fúria reprimida. O pai de quem se afastara estava morto. Morrera tal como tinha vivido…
em busca de um sonho estúpido e ousado, que não só acabara com a sua vida, como com a da sua mãe, irmão, tia e tio.
— A Atlântida é real, Geary. Consigo senti-la em mim enquanto falo.
Está no Egeu por baixo de nós, como uma joia perdida e cintilante à espera que a encontremos e mostremos ao mundo a beleza que em tempos protagonizou.
Ainda era capaz de ouvir a voz hipnótica do pai enquanto lhe segurava a mão sobre a água para que pudesse sentir a suavidade das ondas que lhe acariciavam a pequena palma. Ainda conseguia ver o seu rosto bonito e entusiasmado quando lhe explicou pela primeira vez porque passavam tanto tempo na Grécia.
— Vamos encontrar a Atlântida e mostrar a maravilha a toda a gente.
Fixa bem o que te digo, querida. Ela está ali e a nossa família foi escolhida para revelar a sua magia.
Esse tinha sido o seu sonho louco. Um sonho que dedicara a vida a tentar transmitir à fi lha que, ao contrário do resto da família desvairada, se recusara a acreditar. A Atlântida era um falso mito criado por Platão como metáfora para explicar o que acontecera quando o homem se voltou contra os deuses. Tal como o Necronomicon de Lovecraft , era apenas uma invenção fictícia em que as pessoas queriam acreditar, sacrificando tudo para a provar.
Agora o seu pai jazia num cemitério na ilha que tanto amava. Tinha morrido amargurado e arruinado, uma pálida imagem do homem que tinha enterrado o irmão, o filho, a esposa… E para quê? Todos se tinham rido dele. Tinham-no ridicularizado. Acabara por perder o emprego, além do prestígio enquanto professor anos antes, e só conseguira publicar a sua investigação na imprensa sensacionalista.
Ora, até os editores dessa imprensa se riam dele, e vários tinham-no recusado, rejeitando o dinheiro dele para publicar o seu trabalho ridículo. E ainda assim, ele tinha dado voz ao seu desejo, dando às pessoas mais motivos para se rirem dele, coisa que faziam com vontade. Mas Megeara tinha conseguido vê-lo uma última vez antes de falecer, e o homem não tinha morrido sozinho como temia. Quase por milagre, e contra o prognóstico do médico, o pai conseguira aguentar até ela embarcar num avião nos Estados Unidos e chegar ao hospital para o ver. Embora o encontro fosse breve, ela fizera os possíveis para que pudesse morrer tranquilo, sem se sentir culpado por tê-la trocado pela sua busca. Se ao menos também tivesse conseguido encontrar um pouco dessa paz. Ainda não tinha conseguido esquecer e perdoar tudo o que se tinhapassado. Por mais que o avô tentasse justificar os atos do pai, ela sabia a verdade. A única coisa que ele alguma vez tinha amado era o seu sonho, e por ele sacrifi cara a sua família inteira… — a família dela.
Agora, aos vinte e quatro anos, graças a ele, ela não tinha nem irmão nem pais. Estava completamente só no mundo.
A promessa ao pai de que continuaria com o seu trabalho queimava-a por dentro. Fora um estranho e raro momento de fraqueza na sua vida.
Mas vê-lo assim tão fragilizado, deitado numa fria cama de hospital enquanto se agarrava desesperadamente à vida, tinha-a destroçado, e embora mal se tivessem falado nos últimos oito anos, ela não tinha tido coragem para o magoar, quando tudo o que ele procurava era morrer em paz.
Megeara franziu os lábios enquanto observava as ondas que se desfaziam nas praias brancas.
— Encontrar a Atlântida, o tanas. Não me vou desgraçar como tu, pai. Não sou assim tão estúpida.
— Dra. Kafieri?
Voltou-se ao som de uma voz com um forte sotaque grego, deparando- se com um homem baixo e rechonchudo nos seus cinquenta anos. Primo do pai, Cosmo Tsiaris era o advogado da família na Grécia. Espécie de parceiro na companhia de resgates do pai, também ajudava o pai na sua busca antediluviana, providenciando autorizações e apoio de investidores.
Embora conhecesse o Cosmo desde sempre, Megeara assustou-se quando este a saudou. Kafi eri era o nome do pai — um nome que ela tinha descartado há anos, depois de todas as suas candidaturas às universidades terem sido recusadas, apesar de reunir todos os requisitos de admissão.
Nenhum departamento respeitável de Clássicas, História ou Antropologia aceitaria na sua equipa um Kafieri, por medo de manchar a reputação. Assim, começara a usar o sobrenome de solteira da mãe, para conservar a credibilidade e reputação.
Como o resto da sua família próxima, Geary Kafieri tinha morrido naquelas mesmas praias.
— Chamo-me Dra. Megeara Saatsakis…
Um animado sorriso curvou os lábios do homem.
— Casou-se!
— Não — respondeu ela muito simplesmente, fazendo com que ele literalmente se esvaziasse diante dos seus olhos. — Alterei legalmente o meu nome há já oito anos, quando fui para os Estados Unidos e solicitei a emancipação do meu pai.
Percebia pela expressão no rosto de Cosmo que este não entendera o que ela lhe dissera, mas não importava. Sabia que com a sua mentalidade patriarcal, jamais o compreenderia.
Franzindo o sobrolho, Cosmo não teceu qualquer comentário às suas palavras e ofereceu-lhe uma pequena caixa.
— Prometi ao Eneas que, se algo lhe acontecesse, certificar-me-ia de que isto seria entregue à sua filha. Continua a ser a filha dele, certo?
— Sim — disse ela, ignorando o comentário sarcástico. Quem mais seria suficientemente parvo para reivindicar um tolo como seu pai?
Megeara arrepiou-se. Amava o pai. Mesmo sabendo que as suas buscas e sofrimento o tinham privado de tudo, inclusive da sanidade e da saúde, sempre o amara. Como podia não o fazer?  Tinha sido um pai amável e carinhoso quando ela era criança. Só quando ela entrou na adolescência e começou a questionar a investigação e paixão pela descoberta, é que se começaram a afastar.
— A Atlântida é uma grande treta, pai. Toda esta investigação o é. Não quero andar mais neste barco estúpido. Sou jovem e quero amigos. Quero ir à escola e ser normal. Estás a desperdiçar o teu tempo e a minha vida! Vivia o seu décimo quinto aniversário e o pai esbofeteou-a com tamanha força que ela ainda conseguia sentir a dor aguda do gesto.
— Não te atrevas a insultar a memória da tua mãe. Ou a do meu irmão.
Eles deram a vida deles por isto. Seis meses mais tarde, também o irmão de Megeara perderia a vida pela investigação, quando o equipamento de mergulho se emaranhou e o tanque ficou sem oxigénio. Fora a gota de água. Ela não ia ser como Jason. Não ia abdicar da própria vida pelos sonhos de outra pessoa… nunca.
Por isso, que importava ter feito uma promessa ao pai?  Ele estavamorto. Nunca saberia que ela não a cumprira. Tinha morrido feliz e Megeara poderia finalmente deixar o passado para trás e viver a sua vida na América.
Como o avô, tencionava deixar aquele país e nunca mais lá voltar. Cosmo entregou-lhe a singela caixa branca, e deixou-a a sós para a abrir.
Megeara fitou-a durante alguns minutos, apreensiva com o que poderia encontrar. Conteria algum objeto pessoal que a fizesse chorar?  Sinceramente, não queria voltar a chorar por um homem que lhe tinha partidoo coração vezes sem conta.
Mas a curiosidade acabou por vencer e Megeara abriu a caixa. A princípio, parecia ser apenas um pedaço de papel de seda enrugado. Foi preciso afastá-lo para ver o que continha. E o que encontrou deixou-a pasmada. Fitou a palma da mão, incapaz de compreender. A caixa continha dois objetos. Um parecia ser um komboloi — um fio de contas parecido com o rosário pequeno que alguns gregos utilizavam quando estavam tensos ou preocupados, mas ela nunca tinha vistoum assim. O desenho e a datação pareciam anteriores aos de qualquer outro komboloi de que ela tivesse ouvido falar. Tinha quinze contas de umverde iridescente, feitas de um tipo de pedra desconhecido, onde tinhamsido gravadas pequenas e intrincadas cenas familiares de pessoas com umtipo de roupa que ela nunca tinha encontrado nas suas investigações.
As contas trabalhadas alternavam com cinco contas de ouro, que exibiam trêsraios a atravessarem um sol. Onde um komboloi normalmente apresentava uma pequena peça grega, como por exemplo uma medalha do tamanho de uma moeda pequena, este tinha um círculo com uma escrita semelhante ao grego antigo, mas muito diferente. Tão diferente que nem ela que crescera a ouvir grego antigo podia decifrá-la. Como muitos artefactos acabados de extrair de uma escavação, o komboloi tinha uma pequena etiqueta branca presa a um fio vermelho,onde o pai anotara algumas informações:
9/1/87
a cerca de 1,5 metros abaixo da marca de referência (ver página 42)
datação absoluta: 9529 a.C.
pedra verde desconhecida/sem verificação
escrita desconhecida/sem verificação
O antropólogo em Megeara emocionou-se perante o significado histórico daquela descoberta. Se a datação fosse realmente absoluta…A peça revelava uma sofisticação e uma técnica metalúrgica desconhecidas.
Naquele tempo, os gregos não deveriam ter tamanha arte. Defacto, a precisão dos entalhes e das gravuras tornava mais possível que tivessem sido feitos por uma máquina e não à mão. Há onze mil anos, a humanidade ainda não possuía as ferramentas necessárias para realizar algo tão intrincado.
Como era possível? Intrigada, Megeara concentrou-se numa pequena bolsa de couro no fundo da caixa. Também ela estava etiquetada.
7/10/85
datação absoluta: 9581 a.C.
metal desconhecido/sem verificação
Franzindo o sobrolho, Megeara abriu a bolsinha e encontrou cinco moedas de diferentes tamanhos. Eram antigas… muito antigas e revestidas de pátina. Mais uma vez, não havia moedas assim tão antigas. Não as havia naquela era, muito menos na Grécia. Tal como o komboloi, as moedas apresentavam o mesmo tipo de escrita, mas por baixo havia algo que ela já conseguia entender, dizia: “Província Atlante de Kirebar” em grego antigo.
Deus meu!
Uma vez mais, as moedas não pareciam ter sido feitas à mão, nem a liga metálica era reconhecível. Não eram de uma cor alaranjada, não eram de prata, nem de ouro, nem de bronze, cobre ou ferro — talvez fosse uma estranha combinação desses metais, embora tampouco o parecesse. Mas que raio seria aquilo? Apesar da pátina, as imagens e a escrita eram nítidas e precisas, como nas moedas modernas.
Com o coração acelerado, Megeara voltou a moeda maior para ver o reverso. Nele figurava o mesmo símbolo estranho gravado no komboloi, de um sol atravessado por três raios. E sobre a gravura liam-se umas palavras desconhecidas por cima de outras em grego: “Que Apollymi nos proteja”.
Megeara fitou a moeda com incredulidade. Apollymi? Quem seria? Nunca tinha ouvido aquele nome.
— É uma falsificação.
Tinha de ser, mas sabia que não. Não eram falsificações. O seu pai devia tê-las encontrado numa das suas muitas escavações no Egeu. Aquilo tinha sido a motivação do pai quando o mundo inteiro se ria dele. Ele sabia uma verdade em que ela se recusara a acreditar.
A Atlântida era real.
E se assim era, o seu pai tinha sido questionado por todos… até por ela. Uma dor tremenda dilacerava-a à medida que recordava todas as discussões que tinham vivido. Ela não tinha sido melhor que os outros todos.
Meu Deus, as discussões que eles tinham tido ao longo dos anos. Porque nunca lhe contara nada? Porque lhe ocultaria uma descoberta de tal magnitude? Infelizmente, Megeara sabia a resposta. Porque eu não teria acreditado. Mesmo que ele me tivesse mostrado o lugar onde tinha encontrado aqueles objetos. Teria rido dele e feito troça dele.
Sem dúvida, o seu pai tinha querido poupar-se à dor de ver a filha rir-se dele. Fechando a caixa, Megeara apertou-a contra o peito, lamentando cada palavra e crítica horríveis que tinha pensado sobre ele. Quanto o tinha ferido. A única pessoa que devia ter confiado nele tinha sido tão cruel como todos os outros. Agora era demasiado tarde para se arrepender.
— Lamento muito, pai — sussurrou entre lágrimas. Como todos os outros, ela tinha assumido que ele estava louco. Perdido. Estúpido. Mas de algum jeito ele tinha encontrado esses artefactos. E de algum jeito eram reais.
A Atlântida existe. Aquelas palavras redemoinhavam na sua mente. Com o olhar fixo no mar azul, apertou a caixa com força enquanto recordava as últimas palavras para o seu pai.
— Sim, sim, eu prometo. Eu vou procurar a Atlântida também. Não te preocupes com isso, pai. Fica em boas mãos.
Aquelas palavras tinham sido ditas de forma apressada e desapaixonada, e ainda assim o reconfortaram.
— Está lá, Geary. Sei que a encontrarás e verás. Tu. Verás. Conhecer-me-ás pelo que sou e não pelo que pensaste que era.
Então ele adormeceu e poucas horas depois morreu, enquanto ela lhe segurava a mão. Nesse momento, Megeara tinha-se sentido como uma criança e não como a mulher adulta que era. Uma menina que só queria recuperar o pai.Que desejava com todas as suas forças que alguém a reconfortasse e lhe dissesse que tudo fi caria bem. Mas não havia ninguém na sua vida que pudesse fazer isso. E agora, depois de tudo, aquela promessa apressada e ridícula ganhava novo sentido para ela.
— Estou a ouvir-te, pai — sussurrou ela à brisa perfumada de azeite, na esperança de que esta levasse a sua voz até onde ele estivesse. — E não te deixarei morrer em vão. Vou provar que a Atlântida existe. Por ti. Pela mãe e pelo tio Theron e a tia Athena… pelo Jason. Ainda que me custe a minha vida, cumprirei a minha palavra. Encontraremos a Atlântida. Juro-o. Mas, apesar de ter proferido aquelas palavras com convicção, não podia evitar perguntar-se se seria capaz de suportar o ridículo que o pai tinha aguentado durante toda a sua vida profi ssional. Há apenas seis semanas, Megeara tinha terminado o doutoramento em Yale e era suposto começar a dar aulas em Nova Iorque nesse outono. Era uma proeza para alguém tão jovem, e todos esperavam muito dela… as instituições, os professores que lhe tinham outorgado o doutoramento e ela mesma.
Seguir aquele caminho seria uma estupidez. Ela perderia tudo. T-U-D-O. Era um passo difícil de dar. Um do qual nunca recuperaria.O meu pai acreditava.E o tio e a mãe. Tinham dado a vida pela descoberta, mesmo quando o mundo se ria deles. Agora, uma segunda geração de parvos ia seguir o caminho para a ruína da primeira.
Megeara só esperava que no fi nal o seu destino fosse melhor do que o que tinha tido a primeira geração.
Tal pai, tal filha.
Ela não tinha outra opção senão completar a demanda que ele tinha começado, e porque enquanto não o fizesse, o seu nome não valeria nada,tal como o do seu pai.
— Que comecem as vergastadas… “

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