segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

À Luz da Meia-Noite

 Editora: Chancela Chá das Cinco
1º Edição: 2013


Sinopse:
«Conheçam Aidan O'Conner.

Uma celebridade generosa que tudo oferecia e nada pedia em troca… até ser enganado pelos que o rodeavam. Agora Aidan nada quer do mundo ou sequer fazer parte dele.
Quando uma estranha mulher aparece à sua porta, Aidan sabe que já a viu antes… nos seus sonhos.

Uma deusa nascida no Olimpo, Leta nada sabe do mundo dos humanos. Mas um inimigo implacável expulsou-a do mundo dos sonhos e para os braços do único homem capaz de a ajudar: Aidan. Os poderes imortais da deusa derivam de emoções humanas, e a raiva de Aidan é todo o combustível que precisa para se defender…

Uma fria noite de inverno irá mudar as suas vidas para sempre…

Aprisionados durante uma tempestade de inverno brutal, Aidan e Leta terão que conquistar a única coisa que os poderá salvar a ambos – ou destruí-los – a confiança. Conseguirão triunfar sobre todos os obstáculos?»





A história por trás do livro: 

Quando o Editor de Sherrilyn perguntou a ela se queria escrever um livro de Natal que fosse mais do que uma novela, mas não tão longo quanto uma. A ideia de fazer um giro sobre o clássico de Natal, e essa ideia já estava a ser agitada na sua mente há algum tempo. Quando a editora pediu, Sherrilyn aproveitou a oportunidade para contar a historia.

Prologo:

"DOLOR sorriu quando sentiu finalmente o chamamento no seu anel de convocação. Há séculos incontáveis que dormia — condenado a esperar que a outro humano crescessem testículos suficientemente grandes para o acordar. Como odiava a deusa do sonho, Leta, por ter a capacidade de o acorrentar àquele destino. De o tornar o cão de colo de um mero mortal.
Agora a cabra ia pagá-las.
Mas primeiro tinha de lidar com aquele mortal patético que detinha poder temporário sobre ele. Inclinou a cabeça para trás e permitiu que a parte consciente de si viajasse pelas trevas até surgir como uma aparição perante o seu convocador.
- Vês? Eu disse-te que ia funcionar!
Dolor olhou de sobrolho franzido para o homenzinho baixo e roliço que tinha olhos azuis sapudos, óculos e um escalpe calvo que brilhava sob as ásperas luzes fluorescentes. Ao seu lado estava um homem mais alto, de cabelo louro cortado à escovinha. Os seus olhos verdes eram ferozes de loucura e raiva.
E aqueles olhos semicerraram-se desconfiadamente quando se fixaram em Dolor.
- Quem és tu?
Dolor soltou um ronco de troça com aquela pergunta asinina.
- Foram vocês que me convocaram. Não sabem?
O humano ficou calado enquanto o homem mais baixo empurrava os óculos para cima sobre o nariz com o dedo indicador.
- Estás a ver, eu disse-te, Donnie. O livro de feitiços e o anel funionam, tal como o Mark disse. Eu disse-te que o Mark era um génio com todas essas coisas esquisitas do oculto. Ele nunca se enganou. Agora diz ao deus da dor quem queres que seja castigado e ele fá-lo-á.
- Por um preço - acrescentou Dolor, recordando-os de que era preciso mais do que simplesmente ler as linhas do livro e usar o seu anel para o fazer regressar da estase. Naquele momento, a maior parte dos seus poderes estava ainda contida pela maldição de Leta.
O louro cruzou os braços sobre o peito e fez-lhe uma dura careta de presunção.
- Que preço?
Dolor encolheu os ombros despreocupadamente, como se o elevado preço não fosse de importância alguma.
- O preço da vingança: um sacrifício de sangue. Preciso que mates alguém para eu poder acordar do meu sono.
O que se chamava Donnie anuiu, como se concordasse com os termos. Um instante depois, puxou uma pequena faca improvisada do bolso de trás e cortou a garganta do homem ao seu lado. O homem mais pequeno tentou gritar, mas o corte era demasiado profundo para o permitir.
Dolor ergueu uma sobrancelha quando o homem mais pequeno caiu no chão, agarrado ao pescoço, e ficou a contorcer-se até a morte finalmente o reclamar. Donnie limitou-se a vê-lo morrer sem um único sinal de remorso ou sentimento pela pessoa que fora seu companheiro de cela durante os últimos dois anos.
Ótimo. Dolor precisava de alguém tão destituído de uma alma para o ajudar.
A sorrir, aplaudiu o humano.
- Um belo gesto, mas não o que eu necessito.
Donnie franziu o lábio.
- O que quer dizer com isso?
- Há um ritual, seu idiota. Eu não posso regressar sem… - Dolor hesitou em revelar demasiado, não fosse atemorizar o humano - certos requisitos.
- E quais são eles?
Mais uma vez, Dolor hesitou, mas não havia outra maneira de o humano acordar os seus poderes. Teria de esperar que ele continuasse a revelar-se sem coração e frio.
- O sangue de um ente amado. Tens de me oferecer uma pessoa que seja importante para ti e de pronunciar a minha maldição enquanto a deixas sangrar. Quando as palavras forem ditas e ela estiver morta, os meus poderes serão libertados e eu poderei entrar neste mundo.
A história era um pouco mais longa do que isso, mas o humano não precisava de saber o resto enquanto não chegasse a altura certa. Era melhor começar pelo princípio. Se Dolor conseguisse obter o sacrifício, o resto seria mais fácil… desde que o humano desejasse seriamente a sua vingança.
Donnie fez um olhar cético.
- Como é que eu sei que não me está a mentir?
- Porque haveria de mentir?
- Porque toda a gente mente.
E como ele o sabia. Tinham sido as mentiras e enganos que tinham feito aterrar aquele monte de bosta na prisão. Dolor fez-lhe um sorriso tranquilizador, ainda que insincero.
- É verdade, mas eu quero a minha liberdade tanto quanto tu.
Donnie fez um riso de desdém.
- E eu já vi este fi lme algumas vezes. Quando estiver livre, mata-me, não é?
Dolor riu-se.
- O meu veneno não é para ti, pequeno humano. Tenho a minha própria pessoa a fazer sangrar. Por causa dela, primeiro tenho de fazer o que me ordenares. Depois, e só depois, fi carei livre para levar a cabo a minha própria vingança. Acredita em mim, ainda viverás muito tempo depois de me ir embora.
Porque viver com as ações que teria de executar para libertar Dolor  era a pior coisa que Dolor poderia fazer por aquele humano, e uma vez que era o deus da dor…
Dolor sorriu e desta vez o sorriso era sincero.
Donnie passou por cima do corpo para se aproximar da sua tremeluzente forma de fantasma.
- Estou à espera disto há demasiado tempo. Desde o dia em que fui preso que tenho tentado de tudo, e nada funcionou. O que eu quero, mais do que qualquer outra coisa neste mundo, é que o meu irmão mais novo morra, e quero que sofra uma infelicidade inimaginável antes de morrer. Estou a falar de dor de proporções bíblicas. Quero que fique a gritar por misericórdia e a suplicar-me que o mate para acabar com tudo, enquanto eu me rio da sua agonia. Consegue fazer isso?
- Essa é a minha especialidade.
Donnie sorriu, e a insanidade flamejou profundamente nos seus olhos.
- Diga-me, então, o que tenho de fazer para o pôr em liberdade. Faço qualquer coisa para ver o meu irmão sofrer e morrer, qualquer coisa mesmo.


Dois dias depois


NUM longo e flutuante vestido grego branco, Leta acordou com um súbito arfar. Levou vários segundos a aclimatar-se ao que a rodeava.
Estava ainda no seu casulo almofadado, a dormir no salão de espelhos da Ilha Desaparecida.
Mas havia alguma coisa errada. Conseguia senti-lo. A mão negra do mal deslizava sobre o seu corpo com o seu toque inconfundível.
Dolor, o mais vil de todos os deuses, fora convocado de volta ao reino humano, o que desencadeara o seu próprio despertar. O deus da dor fora preso séculos antes por Leta, que o combatera até ficarem ambos ensanguentados e exaustos. Proibida por Zeus de o matar de imediato, fora forçada a prendê-lo para que nunca mais fi zesse a ninguém o que lhe fizera a ela.
E, depois de o prender, ela colocara-se em estase para se restabelecer e aguardar o momento em que o deus voltaria a acordar.
Agora, alguém encontrara o anel escondido de Dolor e pronunciara as palavras que nunca mais deveriam ser pronunciadas. Contendo a respiração, permitiu que as suas memórias enterradas a assaltassem.
Idiotas! Os estúpidos dos humanos não faziam ideia do que tinham posto à solta. Dolor não se contentava em atacar a pessoa contra quem era enviado. Não, era sedento de sangue e impiedoso. Dolor não respeitava nada, e ninguém era imune à Dor.
Claro que ele iria perseguir e matar a pessoa que tinha por missão perseguir, mas, assim que cumprisse essa missão, a Dor regressaria àquele que o convocara.
Os deuses ajudassem, então, o convocador. A sua tortura não teria fim.
Fechando os olhos, fez despertar os seus poderes adormecidos.
Deixou que os seus pensamentos vogassem até encontrar o alvo da Dor.
O alvo estava de costas para ela, mas mesmo assim percebeu que era um homem alto e de ombros largos. O seu cabelo louro estava despenteado e ondulado, caindo-lhe pela altura do colarinho negro.
Como deusa do sonho, conseguia sentir as amargas emoções do homem. Eram tão fortes que conseguia senti-las como se fossem suas.
- Sim — dizia ele, a sua voz cheia de rancor. — Nunca deixa de me surpreender como uma única mentira pode destruir toda uma vida de bem.
E foi então que ela percebeu uma coisa. Aquele homem não precisava da Dor. A Dor já vivia dentro dele, junto com a Amargura e a Raiva. Tinham-no bem apertado contra os seus peitos, e, pelo que conseguia sentir, não tinham qualquer intenção de o largar.
Depois ela ouviu…
Aquela funda gargalhada, que lhe fez gelar o sangue.
- Leta…
Transportou-se do seu estéril casulo para ficar de pé no frio chão de mármore. Um vento agreste colou-lhe o vestido ao corpo, expondo os seus pés nus até aos tornozelos. As pulseiras de ouro nos seus antebraços ficaram tão geladas que lhe queimaram a pele. As paredes à sua volta eram brancas; nenhum quadro ou cortinas quebravam a sua qualidade estéril.
Ainda assim, sentia a presença do deus da dor.
- Onde estás, filho da mãe?
Dolor apareceu por trás dela. Antes de ter tempo para fazer um movimento, ele agarrou-a pelo cabelo e puxou-lhe a cabeça para trás, contra o seu ombro.
- Não pensaste realmente que me podias manter preso para sempre, pois não?
Ela tentou debater-se, mas ele soltou-a e desapareceu.
- Isto ainda não acabou, Dolor — disse ela, a voz carregada com o peso da sua promessa.
O riso dele encheu o quarto.
- Pois não. Condenaste-me a esta maldição, e, antes que acabe,terás de pagar por isso. Agora, vais desculpar-me. Tenho um humano para torturar e matar.
Ela sentiu-o descer pela sua coluna abaixo, e não havia nada que pudesse fazer para o deter. Por ordens de Zeus, as suas próprias emoções tinham-lhe sido retiradas. E, no entanto, sentia alguma coisa… algumas emoções remanescentes do passado, talvez?
Não tinha a certeza. Mas de uma coisa estava certa, havia sufi ciente emoção dentro de si para não permitir que a Dor magoasse outra alma, se o pudesse evitar. Era um voto solene que fi zera, e um voto que ia cumprir. Enquanto houvesse vida nas suas veias, ela ia lutar.
E, quando deu um passo em frente, o alvo de Dolor voltou-se no espelho para a encarar.
Leta estacou quando viu as feições do homem. Era tão belo como um imortal. Através da névoa que separava a Ilha Desaparecida do plano humano, conseguia ver cada curva e cada traço do seu rosto perfeito.
Uma testa firme arqueava-se sobre olhos de um verde pálido. A vibrar de inteligência, mostravam-lhe uma alma marcada pela traição. Uma alma completamente destituída de confiança.
E, naquele único momento, sentiu a mágoa dele no seu próprio coração. Ele queria confi ar em alguém. Queria estender a mão. Mas esquecera-se de como o fazer. Sozinho e frio, era a própria dor personificada.
Inclinando a cabeça, percebeu uma outra coisa. Aquela dor que ardia tão ferozmente dentro do homem era exactamente o que precisava para poder derrotar Dolor. Se pudesse canalizá-la, ela fundir-se-ia com os seus poderes, dando-lhe uma vantagem. Não havia emoção mais forte do que a raiva…
Ele já foi suficientemente magoado…
Não interessava. Dolor tinha de ser derrotado a qualquer custo e, se este humano pagasse o preço, que importância tinha? A vida e a alma de um nunca valeriam mais do que as vidas e almas de muitos.
Aidan O’Conner seria o seu sacrifício, e o seu passado seria finalmente vingado. A Dor seria derrotado pela sua mão e posto a dormir por toda a eternidade."



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