quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Conto - Encontros de Natal


* Este conto foi retirado do livro À Luz da Meia Noite  página ( 137-154)

" Nova Orleães

Bar Santuário, Natal

Aimee Peltier parou a olhar para o ajustamento à sua volta. Aquele era o único dia do ano em que o Santuário estava oficialmente encerrado. EMbora muito poucos membros da sua família alargada e do pessoal fossem cristãos, não deixavam de honrar esse feriado. Para recordarem as suas próprias crenças e para recordarem aqueles que tinham amado e perdido.
Tal como o nome do bar indicava, aquele era o porto de abrigo para seres híbridos, meio homens, meio animais, perseguidos uns pelos outros e pelos humanos. Os seus pais tinham edificado aquele bar há cem anos, depois de os irmãos mais velhos de Aimee terem sido mortos na guerra sem sentido que dividia o seu povo.
A sua mãe fizera o voto solene de não deixar que mais nenhuma mãe tivesse de chorar a perda de um filho, se o pudesse evitar. Mas, desde então, a visão da mãe quanto ao que era certo e o que era errado alterara-se um pouco. E, para poder manter a paz no bar, tomara decisões com que Aimee nem sempre concordava.
Mas, com efeito, desacordos entre mães e filhas são ainda mais antigos do que os próprios híbridos.
O bar estava na penumbra, iluminado apenas pelas velas. O seu irmão Dev estava ao balcão, a servir bebidas. Prendera o longo cabelo louro encaracolado num rabo-de-cavalo, enquanto gracejava com Colt e Angel, que estavam em forma humana, sentados nos bancos altos do bar, a beber cervejas.
A mãe de Aimee, Nicolette, estava a um lado em forma humana a brincar com as crias de urso de Zar. Havia vários tigres, um jaguar e ursos ali sentados ou a lutar na brincadeira, enquanto outros, nas suas formas humanas, jogavam às cartas, brilhar ou conversavam simplesmente.
- Está tudo bem contigo?
Ela voltou-se ao ouvir a voz grave, e viu Maxis atrás de si. Alto e belíssimo, tinha cabelo louro-escuro e olhos de um verdade-prateado que cintilavam à luz fraca. Atónita, teve de pestanejar duas vezes só para verificar se não estava a imaginar a sua presença. Maxis chegara ao Santuário gravemente ferido. Um dos raros dragões Katagaria, não se misturava facilmente com outros grupos. Preferia manter-se isolado no sotão, onde podia dormir em forma de dragão sem ser incomodado.
- O que estás a fazer aqui em baixo?
Max cruzou os braços sobre o peito.
- Senti a tua dor e estava a perguntar-me o que a teria causado. A preocupação dele tocou-a profundamente. Era verdade, a ver a família reunida à sua volta fizera-a sentir a falta da coisa que mais queria.
Fang Kattalakis.
Um lobo que estava meio morto, fora levado para ali pelo seu irmão, e Aimee ajudara-o a recuperar a saúde, tal como fizera com Max. Mas apaixonara-se por Fang, embora soubesse que não havia hipótese de alguma vez existir qualquer coisa entre ambos.
Se ao menos conseguisse convencer disso o seu coração.
Ofereceu a Max um sorriso que sabia ser falso.
- Eu estou bem.
- Não, não estás bem, Aimee. Não tens estado bem desde a noite em que o Fang partiu.
Ela olhou em volta nervosamente.
- Por favor, fala baixo...
- Assim está melhor?
Só conseguia ouvir a voz na sua cabeça. Anuindo, deu-lhe uma palmadinha no braço.
- Vou ficar bem, Max. Obrigado pela tua preocupação, mas sabes como eu sou.
- Pois sei, Aimee. E sei que a solidão é uma masmorra de espigões que perfuram cada camada da armadura que tentas construir à tua volta. - Ele ergueu a mão para lhe mostrar a tatuagem que ali pusera em memória da sua família - Perdi o que era mais importante para mim. Não cometas o mesmo erro.
- Mas Fang e eu não somos companheiros. Não temos as marcas...
- E nós também não tínhamos marcas. E, no entanto, o meu coração está destruído. Não deixes que as Parcas controlem a tua vida. Por vezes, temos de ser nós a assumir a responsabilidade sobre ela.
Deu um passo atrás e o seu olhar varreu todos os outros.
- Não gosto de estar aqui com estas pessoas e animais. Vou retirar-me, mas, lembra-te, a coragem é fazer o que sabemos ser perigoso.
É arriscar a nossa segurança pela oportunidade de algo melhor. Não deixes que os teus medos moldem a tua realidade, porque, não importa quão cautelosa sejas, alguém ou alguma coisa consegue sempre entrar pela tua porta traseira para manifestar esse medo. É melhor enfrentá-lo e derrotá-lo do que deixar que te apanhe desprevenida.
Antes que ela tivesse tempo de comentar, Max desapareceu.
Aimee ficou ali a ponderar aquelas palavras. Ele tinha razão, mas saber uma coisa e agir em conformidade com ela era duas coisas completamente diferentes.

- O que é que ele queria?
Hesitou ao ouvir a pergunta do pai. Com mais de dois metros e dez de altura, o pai intimidava quase qualquer pessoa que o via. Mas ela não. Como sua única filha, Aimee sabia que ele nunca a magoaria.
- Estava a desejar-me boas festas.
O pai dela sorriu antes de a puxar contra si e lhe dar um beijo no alto da cabeça.
- Tu atrais as criaturas mais estranhas.
- Isso é assim tão mau? - Aimee fez um olhar carregado de sentido para os seus irmãos.
O pai riu-se.
Mas o riso não a apaziguou.
- Papá? Posso perguntar-te uma coisa?
Ele olhou-a de sobrancelhas franziddas.
- Não tenho a certeza de estar a gostar desse teu tom de voz, mas podes tentar.
Antes de falar, ela olhou para onde a sua mãe brincava com as crias.
- Se não tivesses sido destinado à mamã, terias ficado com ela na mesma?
O olhar dele tornou-se sombrio.
- Porque perguntas isso?
- Curiosidade.
A expressão do pai endureceu, e ela percebeu que a sua resposta não o acalmara.
- Não me mintas, Aimee. Consigo cheirá-lo na tua pele. Estás a pensar naquele lobo, não estás?
Ela desviou o olhar, incapaz de lhe responder. Não que ele não soubesse.
Os olhos do seu pai lançavam chamas.
E, na mente dela, isso não alterava nada.
- Eu sei, papá. Digo isso a mim mesma todos os dias.
- Se nos deixasses por causa dele, não sei se Nicolette o conseguiria suportar. A tua mãe pode ser dura, mas ela ama-te, e só quer o melhor para todos nós.
- Eu sei.
Ele baixou-se um pouco para lhe murmurar ao ouvido.
- Mas esta é a tua vida, mon petit coeur. Estarei sempre aqui ao teu lado.
Aimee fechou os olhos quando essas palavras lhe aliviaram o coração.
- Obrigado, papá. Adoro-te.
- E eu também te adoro. Agora sorri e junta-te à festa. - Deixou-a para ir falar com o irmão dela, Serre, enquanto Aimee se sentia subitamente deslocada, sem saber porquê. Aquela era sua casa, Aquela era a sua gente, a sua família, e no entanto...
Nunca antes experimentara nada igual, e isso fazia-a sofrer.
- Estás bem, mana?
Fez um aceno afirmativo ao seu irmão Kyle quando ele parou ao seu lado.
- Estou com o princípio de uma dor de cabeça.
- Queres que te vá buscar alguma coisa?
Ela sorriu para o seu rosto juvenil. Era o mais precioso de todos os seus irmãos.
- Está tudo bem, querido. Acho que vou só deitar-me por alguns minutos. Diz à mamã que volto para baixo daqui a pouco.
- Está bem.
Ela apertou-lhe o braço antes de sair do bar pela porta que ligava o edificio à casa onde todos viviam. Parecia estranhamente silenciosa, com toda a gente no bar. Aquela era a única altura em que a casa estava em verdadeiro silêncio.
Aimee dirigiu-se para o seu quarto.
Ao abrir a porta, parou quando sentiu um odor familiar.
Fang.
Com o coração a martelhar-lhe no peito, fechou a porta com estrondo para o procurar. Mas ele não estava ali. Teve vontade de chorar... pelo menos até perceber que o odor era mais forte junto à sua cómoda.
Procurou por baixo de uma pilha de papéis para encontrar uma pequena caixa. Erguendo-a, inalou o aroma que era indiscutivelmente de Fang. Como sentia a sua falta. De olhos cheios de lágrimas, desembrulhou o presente e abriu a caixa para encontrar um pequeno medalhão. À frente ostentava a garra de um urso gravada em volta de um diamente. Na parte de trás via-se a pata de um lobo. Mas foi o que estava no interior que fez com que as lágrimas começassem a cair.
Era um pedaço do seu pelo. Aimee soluçou ao vê-lo. Os animais não davam coisas como esta. Na posse do seu pelo, um inimigo poderia localizá-lo.
Mas Fang confiava nela o suficiente para lho oferecer. Nunca nada a tocara tanto.
Com a mão a tremer, fechou o medalhão e pendurou-o em volta do pescoço. A longa corrente caiu-lhe entre os seios, e ela prendeu-a no soutien para manter o mais perto possível do seu coração e for da vista dos outros. Quando pegou na caixa, percebeu que tinha um cartão no fundo. Ao abri-lo, sorriu com o tipico comentário de Fang.
Saudades tuas.
Nenhum «Amo-te». Nada lamechas ou romântico. Apenas uma curta e simples verdade.
- Também tenho saudades tuas - sussurrou ela, tentando deter as lágrimas que continuavam a cair. E foi então que ergueu o olhar para ver o que restava da marca de uma mão no seu espelho.
A mão de Fang.
Aimee ergueu a sua e encostou a palma à marca da dele.
- Um dia, Fang. Um dia...

Fang pestanejou ao ver Aimee pela janela. Na forma de lobo, conseguia ocultar-se contra o céu a escurecer. Queria tanto abraçá-la, mas sabia que não devia tentar. A sua mera presença punha-a em perigo.
- Um dia, Aimee...
De coração despedaçado, recuou e atravessou o telhado até haver suficiente distância entre eles para poder passar para a forma humana, fazer aparecer as roupas que tinha vestido antes e descer. Dirigiu-se para o lugar onde tinha deixado a sua Suzuki GSX-R. Enfiou o capacete antes de ligar a mota e seguir para casa.
Era tão dificil estar com a sua família quando o que desejava realmente era Aimee. O seu irmão Vane era um lobo de sorte. A sua companheira humana, Bride, aceitara-o, e as Parcas haviam decretado que seriam companheiros para a vida.
Se ao menos um lobo pudesse acasalar com um urso.
Com um suspiro, Fang estacionou a mota e entrou em casa pela porta das traseiras.
Bride enfeitara a casa toda para a festa de Natal. Havia sininhos, azevinho e poinsétias por todo o lado. Ouviu os risos que vinham da sala enquanto deixava as chaves em cima do balcão.
O seu irmão Fury parou à ombreira da porta. Inclinou a cabeça  antes de fazer um som de lobo ao fundo da garganta.
- É melhor lavares esse cheiro de urso de cima de ti antes de te aproximares do Vane. Entras aí a cheirar dessa maneira e ele esfola-te o rabo.
Fang ia começar a dizer-lhe onde enfiar o seu aviso. A última coisa que queria era remover o odor de Aimee de si, mas era Natal.
Um tempo para a paz, e para a família.
- Desço daqui a uns minutos.
Fury anuiu enquanto via Fang subir as escadas. Sentia-se tão mal  pelo seu irmão. Se pudesse, entregava-lhe Aimee, mas não era possível.
Os ursos nunca tolerariam que a sua única filha acasalasse com um lobo. Era coisa, simplesmente, que não se fazia. E se as Parcas não tinham decretado...
Bolas, devia ser horrível.
- Fury?
Voltou-se para ver Maggie que vinha no corredor para se juntar  a ele na cozinha.
- Precisas de ajuda? - perguntou.
- Nah - disse ela, dirigindo-se para o frigorífico. - Vim só buscar um pouco de água. Não gosto de beber aquela coisa dos humanos. Deixa-me com a cabeça tonta, e acho que não queres que o teu pai me veja a transformar-me em lobo enquanto cá está. - O pai dela não fazia ideia de estava rodeado por animais que tinham assumido forma humana para aplacar as famílias de Maggie e Bride. - Com a minha sorte, acabava tão bêbeda que lhe mijava para a perna.
O companheiro de Maggie, Wren, riu-se enquanto se juntava aos dois na cozinha.
- Até te pagava para ver uma coisa dessas.
Maggie deu-lhe uma cotovelada no estômago.
Prometeste-me que te portavas bem.
- Eu estou a portar-me bem. Mas se, por acaso, o Fury mijar no teu pai...
- Wren!
Ele ergueu as mãos num gesto de rendição antes de lhe piscar o olho.
- Vocês são todos tão maus.
Wren limitou-se a sorrir enquanto tirava a água  do frigorífico, antes de regressarem para a sala, onde a família de Bride entoava cânticos de Natal. Bride estava sentada no sofá com o filho ao colo enquanto Vane, no chão, lhe segurava a mão e se encolhia um pouco com a desafinação da canção a cappella.
Fury sentiu uma profunda necessidade de uivar, mas o olhar severo de Vane manteve-lhe o focinho fechado. Depois o seu olhar cruzou-se com Fang, que entrava na sala. O seu cabelo escuro ainda estava molhado, depois do rápido duche.
Farejando, Fang soltou um gemido muito lupino quando o seu nariz foi assaltado pelos cheiros humanos à sua volta. Era difícil quando havia tantos presentes. Mas tinham-se tornado peritos em disfarçar.
Às vezes.
Fury aproximou-se e passou-lhe uma garrafa de água.
- Feliz Nata, mano.
Fang fez um aceno com a cabeça antes de abrir a tampa e beber um gole. Mas, mesmo assim, Fury viu o anseio no rosto do irmão, e perguntou-se o que seria pior. Saber o que queria e não poder reclamá-lo ou ser como era e não fazer ideia se alguma vez encontraria alguém que o conseguisse tolerar...


Nova Orleães
Casa Hunter

Kyrian Hunter olhou para os amigos e família que se tinham reunido para o jantar de Natal. O filho, Nicky, e a filha, Marissa, brincavam debaixo da árvore com a sua sogra, enquanto o melhor amigo, Julian, e a sua esposa Grace estavam a ajudar os filhos a abrir os últimos presentes.
A família da sua mulher, o clã Devereaux, estava toda ali, a rir e a festejar.
Ele tinha de ser o mais sortudo filho da mãe no planeta. Parecia-lhe que fora apenas no dia anterior que não tinha ninguém no mundo a quem amar. Ninguém que se preocupasse com ele.
E, numa noite, um inimigo letal quase lhe tirara aquelas mesmas pessoas agora reunidas na sua casa. A sua cunhada Tabitha levantou-se e bateu no copo para chamar a atenção de toda a gente.
- Peço desculpa por interromper, mas queria pedir um segundo para desejar um feliz Natal a todos vós.
Um grito ergueu-se em resposta, mas Tabitha faz um gesto a pedir silêncio.
- Sabem, a minha avó romena dizia sempre  que inimigos e amantes fazem estranhos companheiros.
O olhar de Kyrian cruzou-se com o de Valerius sobre a cabeça de Tabitha. Ambos tinham passado séculos a odiar-se mutuamente. Mas por causa das respectivas mulheres, que eram irmãs gémeas, tinham enterrado o machado - mas não tanto na cabeça de Valerius como Kyrian desejaria. Ergueu o copo num brinde silencioso  a Valerius, que retribuiu o gesto antes de o seu olhar se virar para o irmão, Zarek, que estava de mão dada com a mulher, Astrid. Tal como Kyrian, Zarek também passara a eternidade a odiar Valerius.
Agora os irmãos estavam reunidos.
Os milagres existiam. As pessoas naquela sala eram a prova viva disso.
- À família - disse Tabitha, erguendo o seu copo. - E agora gostaria de propor um momento de silêncio por aqueles que perdemos mas que guardamos nos nossos corações...
Toda a gente baixou a cabeça num gesto de respeito.
Mas foi a tristeza que Kyrian sentiu, foi gratidão por estarem todos ali reunidos, vivos e de saúde.
Ergueu o copo ao mesmo tempo que Talon e Sunshine. Kyrian sorriu-lhes, recordando o tempo em que ele e Talon eram os dois únicos Predadores da Noite a patrulhar Nova Orleães. Uau, como as coisas tinham mudado desde aquele dia fatídico em que acordara algemado à sua mulher, Amanda.
E dava graças aos deuses por ele.


Nick recuou da janela enquanto observava o grupo lá dentro erguer as cabeças depois da oração. Colou a mão ao vidro e recordou Natais no passado em que ele e a mãe estavam na casa de Kyrian, a celebrar.
Todos os anos, a mãe exigira que a acompanhasse à missa. Todos os anos, até ter sido brutalmente assassinada.
Agora Nick não tinha ninguém.
Podias dizer-lhes. Kyrian e Amanda recebê-lo-iam de volta. Mas não podia. Vendera a sua alma ao Diabo por vingança, e o que quer que ele via, Stryker via também.
E Stryker queria a filha de Kyrian.
Por muito que Nick odiasse Acheron por ter permitido que a sua mãe moresse, não podia deixar Kyrian sofrer. Devia-lhe demasiado por isso.
Fechando os olhos, Nick virou as costas à casa e puxou o colarinho mais para cima para se proteger do frio. Devia haver alguma espécie de borracha para os erros. Mas não havia. A vida era fria, e era brutal.
Para ele, nunca poderia existir perdão. Não havia como regressar à vida que em tempos vivera.
Não havia como recuperar a mãe que amara mais do que a sua própria vida. Ele lixara tudo, regiamente.
De coração partido, Nick afastou-se da casa de Kyrian e atravessou a estrada para o lugar onde tinham estacionado o seu Jag. Depois de entrar, Nick fez uma pausa para fitar a casa. As luzes vermelhas e brancas cintilavam na noite, e conseguia ouvir os risos que vinham da festa lá dentro.
- Feliz Natal - murmurou antes de ligar o carro e arrancar na direcção do cemitério de St. Louis, na Basin Street. Estacionou na bomba de gasolina em frente e atravessou a rua deserta até chegar aos portões fechados. Nick olhou para a direita, olhou para a esquerda, e saltou para cima do muro de três metros e depois para o chão do outro lado.
Estava escuro como breu, mas, como Predador da Noite, conseguia ver melhor à noite do que em plena luz do dia. Ignorou as almas famintas que o tentavam agarrar enquanto se dirigia para o túmulo da sua mãe. Por causa da sua ligação a Stryker, era imune à possessão pelas almas.
Nick abriu o casaco e retirou do interior as rosas que lhe levara. Desfeito pela tragédia da sua vida, ajoelhou-se perante o túmulo e encostou a testa contra a pedra fria.
- Sinto a tua falta, mãe. E perdoa-me.
E ali, na escuridão, pela mais breve fração de segundo, pensou conseguir sentir a sua presença. Mas sabia ser impossível. Ela estava tão perdida quanto ele.
Caindo de joelhos, Nick enroscou-se contra o túmulo e fechou os olhos com força quando uma dor avassaladora o percorreu.


Stryker revirou os olhos ao ver na sua mente a imagem de Nick junto ao túmulo da mãe.
- Lembra-me lá, porque é que fiz dele meu servidor?
A irmã, Satara, ergueu o olhar do seu canto.
- O quê?
Stryker suspirou enquanto mudava de posição no seu trono.
- O teu bichinho de  de estimação. Está a ganir outra vez. Vai lá buscá-lo.
Satara soltou um sonoro ruído de aversão.
- Porque é que não o matas já?
Stryker ponderou a ideia.
- Porque ele será o meu instrumento para matar Acheron. Acredita em mim.
- Acreditar em ti... - Ela deitou-lhe a língua de fora e soprou. Ergueu uma mão para formar uma bola com que conseguisse ver Nick.
- Olha, deixa-o lá. Deixa-o chafurdar na sua mágoa. Quando mais sente a sua perde, melhor para nós.
Talvez a irmã tivesse razão.
Mesmo assim, ver Nick com a sua mãe fizera Stryker recordar a perda que em tempos experimentara  e magoou-o ver Nick sofrer daquela maneira. Mas, mais do que na sua perda, pensou no seu próprio filho.
Urian.
A dor da morte do que seu filho ainda ardia bem fundo dentro de si, e fazio-o odiar a deusa que servira e que lhe exigira que matasse o próprio filho.
- Um dia, Apollymi, hei de dar-te aquilo que me deste. - E havia de se rir enquanto ela chorasse a morte do seu precioso Acheron.


Katoteros 

Ash sorria enquanto observava a sua filha, Simi, e a irmã, Xirena, a abrirem presentes. Envergando um vestido de duende de Natal gótico, Simi tinha cabelo vermelho e preto. As suas asas de demónio era de um vermelho a condizer, e palpitavam enquanto ela desembrulhava uma caixa enorme.
O cabelo de Xirena era louro, e ela estava vestida de verde-escuro e dourado.
De súbito, Simi guinchou de prazer.
- Bonecas Be-Goth! - Fez um sorriso de orelha a orelha a Acheron enquanto rasgava o papel que embrulhava a sua boneca Slayer Storm e a pousava ao lado da boneca Pandora - Akri, tu estragas a tua Simi com mimos, e ela adora o seu akri. Obrigada!
Xirena soltou um gritinho similar ao abrir os seus presentes para encontrar uma colecção de Voodoo Babies. Voltou-se para o servidor de Ash, Alexion.
- Oh, akri, tu sabes o que o teu demónio gosta. Obrigada.
Danger encostou-se às costas de Ash para lhe sussurrar ao ouvido.
- O que é que achas que elas farão quando abrirem os seus sacos Tokidoki?
Um grito agudo e perfurante respondeu à sua pergunta. Ash encolheu-se literalmente.
- Acho que perdi toda a audição.
Alexion soltou um ronco de troça.
- Eu acho que perdemos alguns dos vidros nas janelas.
Danger revirou os olhos para o marido antes de sair do lado de Ash para pôr um braço em volta da cintura de Alexion.
- Não devias ir tratar da sua substituição, então?
- Acho que... - Alexion parou como se tivesse percebido subitamente o que ela queria dizer. - Hmm, pois, acho que sim. - Olhou para Ash. - Com licença...
Ash não teve tempo para responder antes de os dois desaparecerem.
Simi franziu o sobrolho.
- Onde é que eles vão?
- Fazer sexo humano suado - respondeu Xirena antes de comer um dos bonecos de plástico do seu saco Tokodoki.
Ash retirou-se com o comentário de Xirena, que era muito provavelmente verdade.
- Xirena, importas-te?
Ela ergueu o olhar inocente.
- O que foi? É o que eles foram fazer. É o que fazem sempre. Tantos gemidos e...
- Xirena, por favor!
Simi soltou um longo suspiro sofredor enquanto chamava a atenção de Xirena.
- O problema não é contigo, Xirena. Akri tem medo que a sua Simi encontre outro humano com quem ter sexo.
Xirena fez um estranho ruído de demónio.
- Estou sempre a dizer-te, tens de me deixar apresentar-te alguns dos meus amigos demónios. Têm muito masi vigor do que os humanos. Conseguem continuar durante dias seguidos sem parar. E são muito mais bonitos. Nenhum homem fica azul quando...
Ash levantou-se.
- Senhoras demónios? Importam-se? Gostava mesmo de mudar de assunto.
Simi bufou.
- Quem o ouvisse até podia pensar que akri nunca fez sexo, o que a Simi sabe que definitivamente não é verdade. Akri tem mais sexo do que dez humanos suados de que te consigas lembrar.
- Simi! Piedade, por favor. - A última coisa que queria era ter conversas abertas sobre sexo com a filha.
Ash fez uma pausa quando lhe ocorreu subitamente uma ideia. O QVC apareceu na televisão, e os demónios transportaram-se de imediato para junto dos monitores.
Graças aos deuses que conhecia pelo menos uma coisa que as conseguia distrair. Soltou um suspiro de alívio quando elas se estenderam no chão e fizeram aparecer telemóveis para poderem começar a encomendar.
- Estás a ter problemas com demónios?
Ash gelou ao ouvir a voz do irmão atrás de si. Alexion avisara-o de que permitira que Estige ( Styxx) atravessasse para o seu lado de Katoteros para a festividade.
Mesmo assim, isso aborreceu-o.
Ash virou-se para encarar a única pessoa que era uma cópia quase idêntica dele mesmo. A única diferença estava nos olhos. Os de Estige ( Styxx) era de um azul vibrante, enquanto os de Ash eram de um prateado ondulante.
- Pensei que não viesses. Não é propriamente a tua celebração.
Estige ( Styxx) olhou para a árvore de Natal ao canto da sala do trono de Ash - faltava-lhe metade dos ornamentos, já que os demónios tinham decidido pesticá-los ao início do serão.
- Nunca pensei ver uma coisa destas no salão dos deuses atlantes. Pensas muito na tua família, não pensas?
Ash hesitou. Como humano, em tempos suplicara ao seu irmão que o amasse. Pelo menos, que o reconhecesse como família. E, sempre que estendera a mão a Estige ( Styxx), ele repelira-a brutalmente.
Agora a situação revertera-se e era Estige ( Styxx) que lhe estendia a mão. O seu instinto era retribuir o favor.
Mas Ash recusava-se a ser assim... pelo menos nesse dia.
- Levei muito tempo a ter uma família que me quisesse.
Estige ( Styxx) suspirou.
- Nunca serei capaz de me provar perante ti, pois não?
- E quantas vezes já me tentaste matar?
Estige ( Styxx) pousou a mão no ombro de Ash e fez-lhe um olhar sincero.
- Pedi-te desculpas por isso.
- E eu aceitei-as.
- Mas não confias em mim.
- E tu, confiarias?
Estige ( Styxx) desviou o olhar enquanto removia a mão do ombro de Ash e este lamentou a mágoa no olhar do irmão. Queria confiar nele, mas não era assim tão simples. Tinham séculos de traição a separá-los.
- Olha, vamos levar isto com calma, Estige ( Styxx). Dá-me algum tempo.
Estige ( Styxx) anuniu.
- Pelo menos não me estás a atirar para a rua todo nu, não é?
Ash ficou rígido com as palavras insensíveis e a memória que o assaltou do dia em que Estige ( Styxx) e o pai de ambos lhe fizeram isso a ele.
Estige ( Styxx) pareceu horrorizado ao perceber o que tinha dito inadvertidamente.
- Oh, deuses, Acheron. Esqueci-me. Desculpa.
Era por isso que continuava a existir um abismo entre ambos. Estige ( Styxx) esquecera um acontecimento que deixara uma cicatriz indelével na alma de Ash. Uma cicatriz de abjeta humilhação e amargura.
E isso fazia com que Ash quisesse atirar com o irmão contra a parede atrás dele. Tinha os poderes para o fazer, nem precisaria de se mover.
Tão fácil...
Mas refreou-se, por aquele momento.
- O que estás aqui a fazer, Estige (Styxx)?
- Não gosto de estar sempre sozinho.
Quando Ash falou, garantiu que não havia qualquer emoção na sua voz.
- Sim, é mesmo chato estar sozinho, especialmente em dias de celebração.
Estige (Styxx) retraiu-se.
- Eu era estúpido, Acheron. Por favor, dá-me outra oportunidade.
- Queres que o ponha na rua?
Alhou por cima do ombro de Estige ( Styxx) para ver Urian a aproximar-se. Alto e magro. Urian tinha cabelo louro-claro que normalmente usava preso atrás numa trança. Desde o dia em que o pai de Urian, Stryker, lhe cortara a garganta e o deixara a morrer, Urian vivera ali com Ash, Simi e Alexion.
- Está tudo bem, Urian. Eu resolvo isto.
- Tens a certeza? Já passou um dia inteiro desde que matei alguém pela última vez, e estou a ficar ansioso.
Estige ( Styxx) lançou-lhe um olhar ameaçador.
- Não me podes matar. Se o fizeres, Acheron morre.
Urian abanou a cabeça.
- Boa tentativa, mas não resultou. O laço só funciona ao contrário. Eu mato Ash, tu morres. Eu mato-te a ti, é só mais um dia de alegria.
Ash abanou a cabeça.
- Pensei que ias passar a quadra com Wulf e Cassandra.
- Ia, mas depois a Cassandra ficou toda chorona com a festa e não consegui aguentar.
Apesar das suas palavras duras, Ash sentiu a dor que Urian ainda trazia no peito por causa da morte da mulher, Phoebe. Phoebe era irmã de Cassandra, e não havia dúvida de que fora por isso que a deixara tão triste nesse dia.
- Mas continuas a ter o dia de folga.
Urian encolheu os ombros.
- Detesto os dias de folga. São um desperdício tão grande. Que raio, nem sequer há daemones em lado nenhum. Estão todos encolhidos, como se fosse alguma espécie de trégua, ou coisa assim.
- Não te preocupes. Estarão por aí em força pelo Ano Novo.
Urian fez um olhar de esperança.
- Transporta-me para a frente no tempo, Ash. Quero começar a fazer limpezas.
- Sabes que não posso fazer isso.
Urian soltou um som de troça.
- Não queres, diz antes assim. Ambos sabemos que podes.
- Só porque se pode...
- Não significa que se deve. - Urian abanou a cabeça. - Gostava mesmo que arranjasses outro ditado. Esse é muito fraco. - Urian aproximou-se dos demónios e deixou-se cair no chão entre as duas. - Alguma hipótese de vermos um filme de terror?
Simi ergueu a cabeça para o fitar.
- Há algum onde os demónios vençam?
- Não me parece.
- Então, esquece. Prefiro fazer compras.
Urian fez uma careta.
- Eu prefiro que me arranquem os olhos.
Simi arqueou uma sobrancelha.
- Se eu fizer isso, a Simi pode comê-los?
Xirena tirou um frasco de molho barbecue da sua carteira.
- Mas olha que vais ter de partilhar.
Urian soltou um ganido de dor fingida.
Ash não lhes prestou atenção e fez tenções de se desviar de Estige ( Styxx). O irmão agarrou-o pelo braço para o deter.
- Não me podes ignorar para sempre, irmão.
- É verdade - concordou Ash. - Mas posso ignorar-te por agora. - E, como isto, estalou os dedos e deixou Katoteros para visitar o Olimpo.
Normalmente, seria como Urian e preferiria que lhe arrancassem os olhos a estar ali. Nesse dia, porém, era diferente.
Abriu as portas da varanda do tempo de Artemis para encontrar a filha, Kat, a visitar a mãe no salão principal. Kat estava sentada no trono almofadado com o seu longo cabelo louro a cintilar. O marido, Sin, estava de pé atrás dela com uma mão possessivamente pousada sobre o seu ombro, enquanto Artemis o olhava com rancor. O seu longo cabelo ruivo ondulado caia-lhe em volta do corpo, e Ash percebeu que ela estava a um passo de atirar com Sin para fora do seu templo.
- Perdi alguma coisa? - perguntou Ash enquanto se reuniu ao grupo.
Artemis voltou-se para ele a silvar.
- Mata o Sin já.
- Eu fá-lo-ia, mas acho que a Kat teria saudades dele.
- E o que é que isso me interessa?
- Matisera! - disse Kat, colocando a mão sobre a barriga inchada. - Sê boazinha. Ele é o pai do teu neto.
Artemis soltou um guincho de dor antes de desaparecer da sala.
- Avozinha, avozinha, avozinha - disse Sin de uma maneira muito infantil.
Ash fez-lhe um olhar severo.
- Isso é mesmo necessário?
Sin riu-se.
- Absolutamente, e não finjas por um instante que não estás a adorar cada minuto.
Ash não conseguiu resistir a fazer um sorriso.
- Não cada minuto.
Kat revirou os olhos aos dois.
- Vocês são horríveis.
Juntando-se às gargalhadas, Ash aproximou-se para tomar a mão de Kat, e, quando o fez, sentiu um forte clarão de qualquer coisa na sua mente.
Conteve a respiração.
- Solren? - perguntou Kat, usando o termo atlante para pai. - Passa-se alguma coisa?
Ash não conseguiu dizer nada enquanto era invadido por uma estranha sensação. Havia qualquer coisa...qualquer coisa...
Não, era alguém, percebeu ele, que estava a a lançar um pálio sombrio sobre todas as coisas. Olhou para Kat enquanto fazia os possíveis por identificá-lo.
Era inútil. O que quer que fosse, já tinha desaparecido. Mas, mesmo assim, deixara para trás uma fenda.
Alguma coisa vinha atrás dele.
E iria mudá-lo para sempre..."

2 comentários:

  1. Olá! Deixei um selinho no meu cantinho para ti!
    Beijinhos*

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  2. deixei-te um selo !
    http://yabookreviewsportugal.blogspot.pt/2013/02/2013-e-selo-liebster-award.html

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