quinta-feira, 5 de junho de 2014

Só em Sonhos




Titulo: Só em Sonhos 
Titulo Inglês: Dream Chaser 
Páginas: 256
Chancela: Chá das Cinco


A História por trás do livro: 

Simone aparece pela primeira vez em "Prazer da Noite" na  morgue com Amanda e Kyrian. Mas foi retirada pela os editores de Sherrilyn que decidiram que não era a altura certa para conhecerem ela.
Sherrilyn queria escrever o livro de Solin após o livro " O Diabo Também Chora", mas como Zarek, ele não podia ser negado. Ela sabia que tinha de escrever este livro, para não mencionar que Jaden iria aparecer aqui também. Solin retorna em "The Guardian" ( com uma grande surpresa)



Sinopse: 

Xypher tem apenas um mês na Terra para se redimir através de uma boa ação ou será condenado à tortura no Tártaro para toda a eternidade. Mas a redenção pouco significa para um semideus que apenas deseja vingança contra aqueles que causaram a sua queda.
Simone Dubois é uma médica-legista com dons psíquicos e capaz de ajudar os mortos a encontrar os seus assassinos. Quando Xypher pede a sua ajuda para abrir um portal para o Inferno e combater demónios, Simone tem a certeza que está perante um louco.
O futuro da Humanidade encontra-se em risco, mas qual a maior ameaça que Simone enfrenta? Os demónios que vêm em sua perseguição, ou o homem misterioso e sedutor que mudou irremediavelmente a sua vida?

Prólogo:

O ÓDIO é uma emoção amarga, prejudicial. Serpenteia através do sangue, infetando o seu hospedeiro e impelindo-o a avançar, sem qualquer motivo. A sua visão torna-se cínica e distorce até os olhos mais límpidos. O sacrifício é nobre e terno. É a ação de um hospedeiro que valoriza os outros mais do que a si mesmo. O sacrifício é comprado com amor e decência. É verdadeiramente heróico. A vingança é um ato de violência. Permite aos que foram injustiçados recuperar parte do que perderam. Ao contrário do sacrifício, oferece algo a quem o pratica. O amor é enganador e sublime. Na sua forma mais pura, traz ao de cima o melhor em todos os seres. No seu pior, é um utensílio usado para manipular e arruinar qualquer pessoa que se mostre suficientemente tola para se agarrar a ele. Não sejas tolo. O sacrifício é para os fracos. O ódio corrompe. O amor destrói. A vingança é o dom dos fortes. Avança, não com ódio, não com amor. Avança com determinação. Recupera o que te foi roubado. Faz com que aqueles que riram da tua dor paguem. Não com ódio, mas de forma racional, calma e fria. O ódio é o teu inimigo. A vingança é tua amiga. Mantém-na por perto e liberta-a. Que os deuses tenham misericórdia daqueles que injustiçaram porque eu não terei misericórdia deles. Xypher fez uma pausa enquanto lia as palavras que tinha escrito no chão da cela, com o seu próprio sangue, há tantos séculos. Baças e esbatidas, eram uma recordação do que o tinha levado para aquele tempo e aquele espaço.
Eram uma jura sagrada, feita a si mesmo. Fechando os olhos, abriu as mãos e as palavras dissolveram-se na névoa que se ergueu do chão, voltando a reunir-se ao longo do seu braço esquerdo. Símbolo por símbolo, palavra por palavra, os carateres ainda ensanguentados cortaram-lhe a pele. Silvou perante o ardor deles a gravarem-se-lhe na carne. Essa dor aliviou-o. Fortaleceu-o. Em breve fi caria livre durante um mês. Um mês para caçar e matar. Aquela por quem se tinha sacrificado ia pagar e se, ao fazê-lo, ganhasse a suspensão da sua pena… Ótimo. Se não… Bem, por vezes a vingança merecia um bom sacrifício. Pelo menos desta vez morreria sabendo que já ninguém se estava a rir dele.




Capítulo UM



"Café Maspero Nova Orleães Fevereiro de 2008

 — ALGUMA vez te apeteceu meter a cabeça no liquidificador e carregar no botão?
 Simone Dubois franziu o sobrolho, depois riu das palavras de Tate Bennett, chefe dos médicos-legistas da comarca de Nova Orleães, enquanto este se sentava do outro lado da mesa de madeira escura, à sua frente. Como sempre, Tate estava impecavelmente vestido com uma camisa branca e calças de fato pretas. A pele era escura e imaculada, uma dádiva da sua ascendência crioula e haitiana. De feições afiadas, cinzeladas, era muitíssimo belo e os seus olhos negros não deixavam escapar qualquer pormenor. As suas roupas impecáveis contrastavam fortemente com as calças desbotadas e a camisola azul dela, bem como com o caótico ninho de caracóis castanhos-escuros que se recusavam a obedecer a qualquer penteado com que Simone os tentasse subjugar. A única coisa no seu próprio aspeto físico que Simone considerava remotamente interessante eram os olhos cor de avelã que fi cavam dourados sempre que o Sol brilhava sobre eles. Limpou a boca ao guardanapo. 
— Sinceramente… não posso dizer que alguma vez me tenha apetecido. Mas já houve algumas cabeças às quais gostaria de ter feito isso. Porquê? Tate pousou uma pasta à frente dela.
 — Quantos assassinos em série pode ter uma cidade?
 — Não me tenho mantido a par das estatísticas. Depende da cidade, suponho. Estás a dizer-me que temos outro por aqui? Tate desenrolou os talheres e pousou o guardanapo no colo.
 — Não sei. Passaram pelo meu escritório, nas duas últimas semanas, uns casos estranhos. Aparentemente não estavam relacionados. Aquelas quatro palavras estavam carregadas de significado. 
— Mas…
— Mas tenho um pressentimento em relação a isto e não é do tipo «oh, vejam como o mundo é belo e soalheiro». Simone bebeu um gole do seu refrigerante antes de abrir o ficheiro e fazer uma careta perante as macabras fotografias da cena do crime. Como sempre, eram sangrentas e detalhadas.
 — Adoro os presentes que me trazes à hora do almoço. Há raparigas que recebem diamantes. Eu? Recebo caos e sangue… e ainda nem é meio-dia. Obrigada, Tate. Tate inclinou-se para a frente e roubou uma batata frita do prato dela.
— Não te preocupes, Bu, sou eu quem está a pagar. Além disso, és a única mulher com quem posso falar de negócios à hora de almoço. As outras ficam demasiado incomodadas. Ela ergueu os olhos.
— Sabes, não tenho a certeza que isso seja lá grande cumprimento.
 — Confia em mim, é. Se a LaShonda alguma vez ganhar juízo e me deixar, serás a próxima Sra. Tate.
— Uma vez mais, não é elogioso para nenhuma de nós. Deverei dizer à LaShonda o que o maridinho pensa dela? — disse Simone, brincando.
 — Por favor, não. Ela pode envenenar-me o cuscuz… ou, pior, dar-me uma tareia no cus-cus. Simone voltou a rir. — Não te preocupes, eu garantiria que ela era presente à justiça por isso.
— Tenho a certeza que sim
 — Fez uma pausa para pedir uma sandes de camarão po’boy e batatas fritas à empregada. Simone continuou a olhar para as fotografias, enquanto Tate falava com a jovem gótica que anotava o pedido. Sim, aquelas fotografias eram bastante nojentas. No entanto, aquele tipo de fotografias era o normalmente. Como odiava que o mundo estivesse repleto de seres capazes de fazer coisas tão horríveis uns aos outros. O que as pessoas eram capazes de fazer umas às outras já era mau o suficiente. O que os outros habitantes não humanos conseguiam fazer era um pesadelo bem diferente. Literalmente. E ela conhecia bastante bem os dois mundos dos monstros. A empregada regressou à cozinha. Tate inclinou-se um pouco.
— Estás a sentir alguma vibração do outro lado? Simone abanou a cabeça.
 — Sabes que não funciona assim, T. Tenho de estar a tocar no corpo ou em algo que tenha pertencido à vítima. As fotografias não fazem mais do que cortar-me os dedos por causa do papel… e dar-me arrepios. — Estremecendo de simpatia pela forma como a pobre mulher tinha morrido, fechou a pasta e voltou a deslizá-la na direção dele.
— Queres vir comigo à morgue, depois do almoço? Simone arqueou uma sobrancelha perante tal oferta.
 — Estremeço só de pensar na frase de engate que decerto usaste na noite em que conheceste a LaShonda. Anda comigo, querida, e mostro-te a minha coleção de cadáveres. Tate riu.
 — Céus, adoro o teu sentido de humor. Era pena que um homem casado fosse uma das pouquíssimas pessoas a perceber o seu peculiar sentido de humor. Para além de Tate, a única pessoa que o apreciava realmente era um fantasma adolescente que a assombrava desde os seus dez anos. Jesse estava sentado à sua direita, mas apenas Simone o sabia. Mais ninguém o conseguia ver nem ouvir — oh, sorte a dela! Em especial tendo em conta que Jesse estava preso numa deformação temporal do final dos anos 80. Um bom exemplo: trazia vestido um blazer azul-claro que fazia pensar no Don Johnson dos tempos do Miami Vice, com uma popa preta, encaracolada, com os cumprimentos de Jon Cryer do filme A Garota do Vestido Cor-de-rosa. Jesse era um enorme fã de John Hughes, que a obrigara a assistir a demasiadas reposições. Para concluir a vestimenta extravagante, usava uma fi na gravata de cetim branca com o desenho de um teclado e uns Vans de xadrez branco a condizer. — Não quero ir à morgue, Simone — disse Jesse com os dentes cerra- dos. — Não gosto de lá ir. Simone conseguia compreendê-lo. Era o seu local preferido, logo a se- guir ao gabinete do proctologista. Dirigiu a Jesse um olhar compreensivo, mas ambos sabiam que ela não tinha outra escolha senão ir. Não havia nada que Simone não fizesse para levar um assassino à presença da justiça e isso incluía visitar a arrepiante morgue da cidade em vez de ir para o seu laboratório em Tulane. — Então qual é a parte estranha em relação a estes assassinatos? — perguntou, tentando impedir que Jesse repetisse um monólogo com o qual ela já estava bem familiarizada. Além disso, ele podia ir para casa sem ela; simplesmente, não gostava de estar em casa quando Simone não estava lá. Por vezes Jesse conseguia ser um fantasma muito carente. Tate roubou mais uma batata frita antes de responder.
 — O facto de aqui a menina Gloria ter acordado e se ter levantado da mesa de exames. Simone engasgou-se com a Cola que estava a beber. — Desculpa?

— Ouviste-me bem. O Nialls está num colete de forças por causa disso. Passou-se de tal maneira que tivemos de ligar para a ala psiquiátrica para o irem buscar. Simone tossiu duas vezes para limpar a garganta antes de voltar a falar. — A vítima estava em coma? — A vítima estava mortinha da silva. Como pudeste constatar pelas fotografi as, tinham-lhe rasgado a garganta e o Nialls acabara de lhe abrir a caixa torácica para a autópsia. O coração dela estava nas mãos dele quando ela começou a respirar. — Hum, hum… — Foi a única resposta que conseguiu articular durante um longo momento. — E ela levantou-se e foi-se embora… Tate acenou, carrancudo. — Bem-vinda ao meu mundo. Oh, espera, bem-vinda ao teu mundo. O teu é ainda mais bizarro do que o meu. Pelo menos, eu não vivo com um fantasma que tem o seu próprio quarto em minha casa. — Ele olhou de relance em redor da mesa, depois baixou a voz. — O Jesse está aqui? Simone inclinou a cabeça na direção da cadeira onde o seu amigo estava sentado fitando-os de sobrolho franzido. — Por favor, explica-me como é que a rapariga se levantou enquanto ele tinha o coração dela nas mãos — disse ela lentamente. — Isso é que eu gostava que tu me dissesses. Sabes, eu lido com… bem, na maior parte dos dias, bizarras cenas paranormais. Tu és a Rainha do Bizarro. Preciso da ajuda da rainha antes que tenha de começar a contratar uma equipa nova de médicos-legistas que não se passem quando os mortos se levantam das suas mesas. Sabes onde posso encontrar algumas destas pessoas incomuns? Sei que convives com elas. — Obrigada, Tate. Estou sempre ansiosa por estas tuas tiradas de incentivo capazes de me fazer crescer o ego. — Sim, mas pelo menos sabes que te adoro. — Como um buraco num sapato. Tate riu. — Isso não é verdade. És a melhor médica-legista que alguma vez vi e sabes disso. Se te pudesse tirar de Tulane e contratar os teus serviços para a cidade, fá-lo-ia num abrir e fechar de olhos. O facto de seres a única pes- soa com quem posso falar sobre mortes paranormais é um grande bónus. Qualquer outra pessoa mandar-me-ia fechar num quarto ao lado do do Nialls. Simone deitou a mão ao pickle. — É verdade. Já me disseram que têm lá drogas incríveis que ajudam a diminuir essas alucinações. — Então contem comigo. Faziam-me jeito, sem dúvida.

A ela também, mas isso era outra história. Por outro lado, toda a sua vida era suficientemente bizarra para ser considerada uma alucinação gigantesca. Se ao menos o fosse… Simone fez uma pausa, ao voltar a ter aquela estranha sensação no es- tômago. Olhou de relance para o restaurante escuro, depois através da ja- nela à sua esquerda, que revelava o trânsito lento de Decatur Street. Nada parecia fora do comum, mas a sensação persistia. — Passa-se alguma coisa? — perguntou Jesse. — Tenho aquele pressentimento, outra vez. Tate franziu o sobrolho.
 — Que pressentimento? O rosto de Simone corou perante a pergunta de Tate.
 — Na verdade, estava a falar com o Jesse. Mas nas últimas duas sema- nas tenho tido a bizarra sensação de que alguma coisa me está a observar.
 — Queres dizer alguém, certo? Simone abanou a cabeça.
 — Sei que parece loucura…
 — Um corpo acabou de se levantar da mesa de exames a meio da autópsia e achas que a tua história é doida? Sim, Bu… Aquilo era o que mais gostava em Tate. Ele fazia com que ela se sentisse quase normal. Já para não dizer que era a única pessoa, para além dela, que sabia da existência de Jesse. Claro que ela também era a única pessoa, para além de uma pequena mão-cheia, que sabia que Tate era um Escudeiro dos Predadores da Noite — um grupo de guerreiros imortais que caçavam e executavam os daemones vampíricos que caçavam almas humanas. Sim, a vida dela era tudo menos normal. Então porque se havia de preocupar com o facto de se sentir como se algo maléfico a estivesse a observar? Provavelmente estava. E, infelizmente, não seria a primeira vez. Tudo o que queria era ter a certeza que não seria a última.
 — Sabes de onde vem? — perguntou Jesse. — Não. Não consigo localizá-lo. Tudo o que sei é que me está a deixar com pele de galinha. Tate recostou-se na cadeira para olhar fixamente para ela.
 — Gostava mesmo de conseguir ouvir o Jesse. É tão desconcertante quando vocês falam os dois. Faz com que me pergunte se ele não está aí sentado a fazer pouco de mim. Simone sorriu. — O Jesse só faz pouco de mim. — Isso não é verdade.

Ela olhou para Jesse.
— É, sim.
 — Não, não é — interveio Tate. Simone franziu-lhe o sobrolho.~
 — Sabes ao menos sobre o que é que estás a discutir? — Na verdade, não. Mas parecia natural acrescentar isto. Ela riu. — Como é que eu me fui meter com vocês os dois, jamais saberei. — Contudo, isso não era verdade. Jesse tinha ido ter com ela na hora mais negra da sua vida e mantivera-se com ela desde então. Tate… estava lá quando ela chegara o mais perto que alguma vez chegaria de apanhar o assassino da mãe e do irmão. Infelizmente, o seu palpite não tinha dado bons resultados e a prova que ela achava que lhe daria uma pista que permitiria identificar o assassino da mãe estava demasiado conta- minada para ser usada. Ainda assim, Tate tinha lutado por ela com unhas e dentes embora, na altura, não a conhecesse. Isso signifi cava mais para ela do que qualquer outra coisa, e desde então tinham-se tornado amigos. Não havia nada que ela não fizesse por ele e Tate sabia-o. Tate, LaShonda e Jesse eram a única família que ela tinha. Ele recostou-se e esperou que a empregada pousasse o seu prato na mesa e se afastasse antes de voltar a falar.
 — Tens a certeza que não é um dos fantasmas que costumas ver a olhar fixamente para ti? Simone abanou a cabeça. — Não. Eles nunca são assim tão subtis. Normalmente aparecem e dizem algo do género «Ó cabra, faz o que eu te mando». Isto… isto é algo diferente.
— O mal vem atrás de ti — disse Jesse com uma voz soturna, ecoante. Simone semicerrou os olhos e fitou-o. — Odeio quando fazes isso. Tate afastou-se como se o tivessem ofendido.
 — O que é que eu fiz? Ela voltou a sorrir-lhe. — Não és tu. É o Jesse. Está a usar a sua voz de fantasma. É muitíssimo irritante. — Sim, mas ainda assim adoras-me. — Jesse piscou-lhe o olho. — Claro que adoro. Mas poupa a voz para uma aparição. — Pouparia se mais alguém me conseguisse ouvir. Fazes ideia de como isso é irritante? Não, porque toda a gente te ouve quando falas. — Jesse levantou-se e dançou a um canto. — Olá, malta! — gritou. — Vejam a bizarra dança do fantasma. — Agitou os braços e abanou o traseiro. — Sou mau, sou mau, sou mau.
 — Parou e olhou à sua volta, para as pessoas que continuavam com os seus afazeres, ignorando as suas estranhas palhaça- das. — Vês. É uma treta. Simone dirigiu um olhar sério a Jesse, que ergueu as mãos em sinal de rendição. Havia alturas em que ele parecia uma estranha combinação de mãe chata e esposa com um toque de irmão lunático. Concentrou a sua atenção em Tate. — Bem, voltemos à falecida… a polícia tem alguma pista? Tate abanou a cabeça. — Ela foi encontrada num beco no Warehouse District. Tinha a garganta rasgada por algo que parecia uma garra. Demasiado grande para ser um animal e demasiado irregular para serem marcas de facas. — Então, claramente, não foi um ataque daemon. — Os daemones eram um tipo especial de vampiro que vivia em Nova Orleães… e, ao contrário de muitos outros que alegavam, ambiciosamente, serem sugadores de sangue, estes tipos eram reais e eram predadores mortíferos com po- deres sobrenaturais superdesenvolvidos. Sendo médicos-legistas, ela e Tate estavam habituados a ver o trabalho deles a passar pelos seus gabinetes. O facto de ter aceitado e estar disposta a esconder o rasto dos daemones era o que a mantinha próxima de Tate. Eles não estavam a proteger os daemones, estavam a manter o resto da humanidade em segurança não revelando o que, de facto, andava por esse mundo, pronto para a caça. Se a humanidade descobrisse, enlouqueceria e acabaria por matar também pes- soas inocentes. O problema é que, embora os daemones bebessem sangue, não se ali- mentavam dele. Alimentavam-se de almas humanas. Por sorte, uma só alma humana podia mantê-los alimentados durante muito tempo, logo, por norma não saíam todas as noites em busca de vítimas. Se é que se podia chamar sorte a algo assim. E Simone chamava, o que dizia muito sobre o quão bizarra era a sua vida. Sempre que os daemones saíam dos seus buracos, os Predadores da Noite, para quem Tate trabalhava, procuravam-nos, na esperança de os im- pedir de matar mais pessoas. Um bónus em relação às mortes dos daemones era o facto de estas libertarem as almas humanas que tinham ingerido, de tal forma que as suas vítimas podiam seguir viagem para o Além. Tate mergulhou a batata frita no ketchup. — Claramente não foi um daemon — repetiu ele. — Drenaram-lhe o sangue todo e, tendo em consideração que não havia nenhum na cena do crime, presumimos que tenha sido assassinada noutro local e largada no beco. Tens a certeza que não a podes invocar do Além e perguntar o que aconteceu?

— Isso são coisas de sacerdotisas vudu, Tate. Os mortos vêm falar comigo, não o contrário. Tate refreou uma expressão de desapontamento. — Precisamos de encontrar o corpo o mais depressa possível. Os pais dela estão a caminho, de Wichita, e não quero ter de lhes dizer que a filha se levantou da mesa de exames e desapareceu sem deixar rasto. — Conseguiste sacar alguma coisa do Nialls? Tate fungou. — Nada coerente. Como podes imaginar, ele estava um bocadinho histérico. Tudo o que disse foi que ela lhe sorriu a caminho da porta. — Então não sabes se ela era um zombie? — Felizmente nunca vi um zombie. Já vi muitas coisas estranhas no meu trabalho, mas isso não. E tu? — Não. No entanto, aprendi a não pôr em causa esse tipo de coisas. Se há uma lenda, então existe algo real atrás dela. Tate saudou-a, erguendo a sua bebida. — Então e os teus contactos entre os Escudeiros? Eles têm alguma informação a este respeito? Tate abanou a cabeça. — Nenhum deles sabe mais sobre mortos a passear por aí do que tu ou eu. Os daemones não fazem levantar os mortos. Fazem cair os vivos. Simone olhou para Jesse. — Tens alguma sugestão? — Só que gostava que o meu corpo ainda andasse por aí. Faria com que o facto de não estar bem morto fosse mais fácil de suportar. — Obrigada pela não-ajuda, Jesse. És um amor. Simone não disse muito mais enquanto terminavam o almoço, depois dirigiu-se para a morgue. Jesse optou por fi car no exterior enquanto ela seguia Tate para o interior da cripta. Sinceramente, não podia culpar Jesse pelos seus sentimentos. Exceto Jesse, ela também não gostava de passar tempo com os mortos. A única razão por que fazia o que fazia era para ajudar as vítimas e as suas famílias. Tendo visto a mãe e o irmão serem mortos a tiro à sua frente, a última coisa que queria era manter-se à margem e permitir que o assassino de alguém saísse em liberdade. Era por isso que trabalhava para a cidade, em regime pro bono, e passava a vida a treinar a geração seguinte de médicos-legistas em Tulane. Achava que conseguia ajudar mais pessoas se pudesse treinar outros médicos-legistas a trabalhar de forma conscienciosa do que lidando apenas com os casos do dia a dia. Quanto mais pessoas fizessem bem o seu traba- lho, menos criminosos sairiam em liberdade para voltar a matar. Uma tal filosofia era, também, o que a mantinha solteira. A maior parte
dos homens não gostava de sair com mulheres que fossem igualmente hábeis com um bisturi e uma pá. Tate abriu uma porta no meio das arcadas da cripta e puxou uma gaveta vazia. — Ela estava guardada aqui. — Tens algum artigo pessoal dela? — Vou buscá-los. Simone fechou a gaveta e virou-se ligeiramente ao sentir uma presença atrás de si. Era uma jovem mulher, com cerca de vinte e quatro anos. O cabelo castanho estava em desalinho e ela parecia algo confusa. Era um estado natural para muitos dos recém-falecidos. — Posso ajudar-te? — perguntou Simone à rapariga. — Onde é que eu estou? Simone hesitou. Nunca gostara de ter de dizer a outra pessoa que já não estava viva. — Qual é a última coisa de que te lembras? — Estava a regressar a casa do trabalho. Era um bom começo. Se Simone conseguisse ajudar a rapariga a recordar mais pormenores da sua vida mesmo antes de esta ter terminado, então talvez ela se recordasse também da sua morte. — Como te chamas, querida? — Gloria Th ieradeaux. Um arrepio percorreu a espinha de Simone, quando a reconheceu das fotografias. Aquela era a mulher cujo corpo se tinha erguido e abandonado a morgue. Merde. O fantasma olhou em redor da sala. — Porque é que eu estou aqui? — Não sei bem. — Tal como não sabia como é que o corpo dela se tinha reanimado a si próprio. — Porque é que não consigo tocar em nada? — A agonia na voz da jovem mulher fez com que lágrimas de simpatia enchessem os olhos de Simone. Não tinha como evitar a resposta e não tinha como a tornar doce ou gentil para a pobre jovem. — Temo que estejas morta. Gloria abanou a cabeça. — Não. Só preciso de ir para casa. — Franziu o sobrolho e olhou em redor da divisão, como se estivesse a tentar identifi car alguma coisa. — Mas não me consigo lembrar de onde vivo. Conheço-te? Simone fez uma pausa. Algo não estava certo. Era normal que um fantasma recente se sentisse ligeiramente desorientado, mas Gloria estava mais do que isso. Era como se faltasse uma parte de si… — Jesse! — chamou Simone. — Eu sei que odeias vir cá dentro mas preciso mesmo, mesmo, de ti. Ele manifestou-se mesmo ao seu lado. — Sim, chefe? Simone apontou para Gloria com um movimento do queixo. — Ela não sabe onde mora. O franzir de sobrolho dele era feroz. — Lembras-te de quando é que te mataram? — Jesse — sussurrou Simone —, um pouco de tato, por favor. Ignorando-a, Gloria abanou a cabeça. — Não me sinto morta. Têm a certeza que eu morri? Simone passou a mão através do abdómen da mulher. — Ou isso, princesa Leia, ou és um holograma. Gloria fitava-a, algures entre o horrorizada e o incrédula. — Como é que fizeste isso? Jesse respondeu por ela. — Não temos corpo. Tudo o que temos é a nossa essência e consciência. Gloria cambaleou para trás, como se tudo aquilo fosse demasiado para ela. — Não compreendo. Como é que alguém pode morrer e não o saber? Jesse encolheu os ombros. — Acontece. Não é comum, atenção. A maior parte das pessoas sabe quando morre mas, de vez em quando, alguém fica preso neste plano de existência sem saber que morreu. Gloria abanou a cabeça, recusando-se a acreditar. — Não posso estar morta. Tenho os exames fi nais. — A Morte não espera por ninguém, querida — disse Jesse, sem hesitar. — Acredita, sei-o por experiência própria. É lixado, mas não deixa de ser a nossa realidade. — O que é que se está a passar? Simone virou-se ao ouvir a voz preocupada de Tate. Este encontrava-se atrás dela, com um envelope de papel pardo nas mãos. — Encontrei a Gloria. — Ótimo, onde é que ela está? Simone olhou de relance para o local onde Jesse e Gloria se encontravam, lado a lado. — Bem, o fantasma dela está mesmo à minha frente. Infelizmente, ela não tem mais pistas do que nós sobre o paradeiro do seu corpo.

Tate suspirou em sinal de frustração. — Como pode ser isso? Quer dizer, a sério, o fantasma não devia ter uma espécie de mecanismo de orientação que o ligasse ao corpo ou algo assim? — Faria sentido. Mas, infelizmente, as duas partes separam-se e o espírito nunca regressa ao corpo… pelo menos que eu saiba. — Simone olhou para Jesse, que acenou com a cabeça em sinal de concordância. Tate estendeu-lhe o envelope. — Então, onde é que isso nos deixa? — Com um mistério dos diabos. — Simone tirou-lhe o envelope das mãos e vasculhou no interior, tocando num fi o que devia ter pertencido a Gloria. Fechando os olhos, tentou sentir algo sobre o momento e o local onde Gloria tinha falecido. Não aconteceu nada. Não conseguia sentir qualquer emoção que dele emanasse, o que era muitíssimo incomum. Desde os cinco anos que Simone era capaz de sentir as emoções que estavam ligadas aos objetos, mal lhes tocava. Voltou a deixar cair o fi o no interior do envelope. — Sugiro que ligues aos teus amigos Escudeiros e os ponhas à procura do corpo dela, enquanto eu e o Jesse tentamos ajudá-la a recordar algo que nos possa conduzir ao seu paradeiro. — Vou ver o que posso fazer. Simone virou-se para Jesse. — Já sei — disse ele, antes que Simone pudesse falar. — Vamos visitar o beco onde ela foi encontrada, em busca de pistas. — Exatamente. Tate fez uma pausa, em frente à porta, com o sobrolho franzido. — Exatamente o quê? — Eu e o Jesse vamos ao Warehouse District. Depois digo-te se encon- trarmos alguma coisa. — Faz-me esse favor. — Tate segurou a porta aberta para que ela e os seus «companheiros» pudessem sair. Simone começou a percorrer o corredor branco, espartano. — Ei, Simone? Ela olhou para trás, para Tate, que se preparava para seguir na direção oposta. — Sim? — Tem cuidado. Aquelas palavras sensibilizaram-na. Tate e LaShonda eram as únicas pes- soas no mundo que sentiriam a sua falta caso lhe acontecesse alguma coisa. — Tenho sempre cuidado, Bu. Tu sabes disso.

Ele inclinou a cabeça na direção dela. — Ainda assim, mantém a tua arma de choque carregada e telefona-me mal termines. Não quero receber uma nova chamada para o mesmo beco. Já enterrei pessoas que amo sufi cientes. Não quero repeti-lo. Simone sorriu perante a sua preocupação. — É um beco, Tate. Há milhões deles nesta cidade. Vou fi car bem. Tate acenou-lhe antes de se dirigir para o seu próprio gabinete. Simone demorou um segundo enquanto aquela estranha sensação se apoderava dela mais uma vez. Nunca compreendera aquelas estranhas sen- sações. No entanto, de uma coisa lembrava-se bem… da primeira vez que a tivera. «Volto já, querida. Espera no carro e não saias daí.» Essas tinham sido as últimas palavras que a mãe lhe dissera antes de ter entrado com o irmão na loja. E morrido. Simone estremeceu quando uma torrente descontrolada de dor abriu caminho através dela. Num instante tudo pode mudar. Esse era o mantra segundo o qual vivia a sua vida e uma lição que aprendera demasiado bem quando só tinha dez anos. Nunca tomar nada, nem ninguém, como certo. Num piscar de olhos a vida muda e, por vezes, tudo o que podemos fazer é aguentarmo-nos o melhor possível enquanto a vida faz os possíveis por nos derrubar. Tentando não pensar nisso, prosseguiu ao longo do corredor, em dire- ção à porta que dava acesso ao parque de estacionamento.

Kalosis (Inferno Atlante)


STRYKER percorreu o escuro corredor que conduzia do seu quarto à sala do trono, a partir da qual comandava o seu exército de daemones. Não devia estar lá ninguém, àquela hora do dia… Ou da noite. O que quer que fosse. Convenhamos, ali, no Inferno, não era realmente importante. Em Kalosis estava sempre escuro, já que qualquer quantidade de luz solar era fatal para os seus. Essa fora a maldição do seu pai, Apolo, que, no meio de uma birra, tinha condenado toda a raça apollite, que o próprio Apolo criara, a viver banida do Sol. E a morrer dolorosamente aos vinte e sete anos. A única forma de um apollite sobreviver para lá do seu vigésimo sétimo aniversário era tomar no seu corpo uma alma humana. A partir desse momento, o apollite transformava-se num daemon — uma criatura demoníaca que tinha de continuar a engolir almas humanas para se manter viva. Claro que era uma existência má e fria, mas também era muito melhor do que a alternativa. Além disso, Stryker tinha sobrevivido onze mil anos como daemon — a sua existência tinha, sem dúvida, os seus benefícios. E as suas recompensas. Muitíssimo divertido com esse pensamento, fez uma pausa à entrada da sua sala do trono quando viu a irmã, Satara, rodeada por um halo aver- melhado, empoleirada no seu trono. O cabelo dela era preto — uma cor que raramente escolhia. Balbuciava palavras em grego antigo, enquanto se balançava ao ritmo de uma música silenciosa. Pois… Stryker pigarreou, mas ela ignorou-o. Não se sentindo divertido pelas ações dela, cruzou os braços sobre o peito e percorreu a distância que os separava. O que ela estava a entoar divertiu-o ainda menos do que o facto de o ter ignorado. — Porque é que estás a invocar um demónio? Um olho, vermelho-sangue, abriu-se para o fi tar com um olhar feroz. — Não estou a invocar. Estou a controlar. Stryker ergueu uma sobrancelha. — A sério? Quem é que te deixou tão furiosa para estares a enviar um demónio? — O que te importa? — Satara fechou o olho e continuou com o seu cântico. Se eles tivessem uma relação carinhosa, Stryker talvez a tivesse deixado em paz. No entanto, ele estava longe de ser um irmão terno e Satara era a sua cruz. Estalando os dedos, tornou ofuscantes as luzes do grande salão. — Se queres matar alguém, conheço alguns demónios gallu que estão mortinhos por comer. Ela emitiu um grito penetrante antes de abrir os olhos e se levantar do trono. — Como se eles fi zessem qualquer coisa que eu lhes pedisse. És um idiota por permitir aos gallu fi carem aqui. É o mesmo que dormir com uma matilha de lobos ferozes aos teus pés. Mais cedo ou mais tarde, eles vão atacar e tu morrerás. Como se ele tivesse medo de uns sumérios banidos. — Kessar e companhia não me assustam. — A ambição insaciável da irmã, sim. Não havia nada que ela não fi zesse para conseguir o que queria e ele sabia-o. — De quem andas atrás?
— Hades deixou aquele maldito Xypher sair do seu buraco. O nome era-lhe vagamente familiar, mas pela sua vida que não se lem- brava de quem era. — Xypher? Satara revirou os olhos. — Oh, como é que te podes ter esquecido dele? Foi o primeiro Preda- dor de Sonhos que eu persuadi a abandonar os seus deveres e fi z mudar de lado. Stryker abanou a cabeça ao recordar o deus que se tinha revelado uma carga de trabalhos mal começara a cheirar os calcanhares de Satara. Ti- nham sido precisos vários deuses para encontrar o sacana e o matar. — Por falar em lobos atrás de ti… Não te avisei a propósito dele? — Oh, cala-te! Stryker afastou-a, rudemente, para poder ocupar o seu lugar no trono. — Sabes, irmãzinha, eu portar-me-ia bem, se fosse a ti. Afi nal de con- tas, tu é que estás escondida… em minha casa. — Não estou escondida. — Não? Então porque estás aqui? Não devias estar no Olimpo, à dis- posição da tia Ártemis? A fúria nos olhos de Satara disse-lhe que tinha tocado num ponto sen- sível. Ótimo. Stryker vivia para irritar as pessoas. — O Xypher tem de ser parado. Ele matar-me-á, se tiver uma oportu- nidade. — Achas? Atraíste o homem da sua vida confortável e divina, fi zeste com que fosse perseguido e, depois, morto e torturado para toda a eterni- dade. Não consigo perceber porque é que ele não te traz rosas e beijos. Satara ergueu o lábio, fi tando-o. — Bem, pelo menos eu não rasguei a garganta do meu próprio fi lho. Stryker esticou um braço, num movimento veloz, e puxou-a para junto de si usando os seus poderes de semideus. Apertou-lhe a garganta até os olhos dela se tornarem protuberantes e a laringe começar a ceder. — O Xypher não é o único homem que deves temer. — Atirou-a para longe de si. Satara endireitou-se e tossiu, enquanto o fi tava furiosamente. — Dei-te tudo, Strykerius. Espiei em teu nome e contei-te coisas que mais ninguém te contaria. Agora peço-te um pouco de proteção e o que é que fazes? Ameaças-me. Como queiras. Partirei e, quando Xypher me ma- tar, espero que recordes este momento e te lembres de que o facto de estares só neste mundo é exclusivamente culpa tua. Stryker esfregou a testa, grato por não poder ficar com dor de cabeça por causa daquele monólogo lamentoso.

— Oh, para com o dramatismo. Nunca fui grande apreciador de teatro. Podes esconder-te aqui à vontade e libertar no mundo humano tantos de- mónios quantos quiseres. Mas, antes de aniquilares por completo a minha fonte de alimentos, posso dar-te uma sugestão? — Qual? Stryker invocou um par de pulseiras de ouro, que surgiram nas suas mãos — um de três pares que tinham sido descobertos há apenas dois anos. Um dos seus generais tinha-as encontrado e levara-lhas, sem saber o que eram. No entanto, Stryker sabia e estava a reservar um par para um «amigo» muito especial. Estendeu-lhe as pulseiras. Pegando nelas, Satara fez uma careta como se estas fossem feitas de carvão e não de ouro atlante. — O que é que faço com isto? Stryker suspirou de cansaço. Havia alturas em que ela era brilhante, mas havia outras em que ele tinha de a conduzir como se ela tivesse a inte- ligência de uma cabra de cinco anos. — Como é que matas um deus? — Retiras-lhe os seus poderes. Stryker acenou, aprovadoramente. — E se não o conseguires fazer? — Seduzes um Chthoniano e dizes-lhe que o deus te atacou e depois ris, enquanto o Chthoniano lhe suga a vida. Mas não tenho tempo para isso. O Xypher está a um passo de abrir caminho por aqui abaixo e me matar. Stryker rosnou-lhe, irritado. — Para de pensar como uma prostituta por um minuto. A melhor for- ma de derrotar um inimigo é atacar o seu ponto mais fraco. Satara pousou as mãos nas ancas. As pulseiras pendiam-lhe precaria- mente da mão direita, como se fossem imitações baratas e não valessem mais do que um reino humano… ou a vida dela. — Ele não tem nenhum. Stryker semicerrou os olhos, fi xando-os nas pulseiras. — Põe uma delas no braço dele e terá. Finalmente interessada no que Stryker lhe tinha posto nas mãos, Sata- ra inspecionou-as. — O que é que estás a dizer? — O que estou a dizer, Témis, é que essas pequenas pulseiras que tens nas mãos são o calcanhar de Aquiles dele. Entrega-as a um dos meus dae- mones Spathi e ordena-lhe que prenda uma no Xypher e outra num qual- quer mortal e os teus problemas terão terminado.

Ela sorriu, ao compreender, por fim, o significado daquelas pulseiras. — Elas unem-nos… Mato o mortal e Xypher morrerá. Stryker inclinou a cabeça na direção dela. — Melhor ainda, se o mortal se afastar mais de seis metros dele, o hu- mano morrerá… e ele também. Satara riu malevolamente antes de se aproximar do trono de Stryker e lhe beijar o rosto. — Eu sabia que gostava de ti por um motivo. Stryker não era sufi cientemente estúpido para acreditar nisso, nem por um instante. A irmã era incapaz de amar quem quer que fosse para além de si mesma. No entanto ele tinha conquistado o seu apoio durante mais alguns dias. Satara atirou uma pulseira ao ar e apanhou-a com as mãos. — Mal posso esperar por ver a expressão no rosto dele quando souber o que isto é. — Em seguida desapareceu, antes que Stryker lhe pudesse dar mais um conselho. — Escolhe sabiamente o humano. — A última coisa de que ela precisa- va era de encontrar um que soubesse como lutar contra eles.
QUANDO Simone deu por encerrada a aula da tarde e chegou ao beco, já estava quase a anoitecer. A brisa soprava com um frio cortante e fora de estação quando ela saiu do Honda branco e subiu para o passeio. Levantou o colarinho do casaco de lã, de forma a tapar-lhe parte do rosto, e estreme- ceu. Nunca gostara de se aproximar de cenas do crime, em especial quando não tinham sido limpas. Naquele momento, não havia nada que marcasse aquele espaço como um local de violência. Parecia-se com todos os outros becos da cidade. Foi isso que mais a perturbou. A vida de Gloria tinha terminado abruptamente, ali mesmo, e só ela e a sua família alguma vez o saberiam. Centenas de pessoas passariam por aquele local inconscientes do facto de que uma jovem tinha sido ali largada como se fosse lixo. Pensar nisso deixou-a lívida e fê-la pensar na sua própria mãe. Simone estremeceu. — Estás bem? — perguntou Jesse. — Sim. O frango do almoço não estava bom. — Comeste uma sandes de queijo e fi ambre. — Oh, cala-te, espertalhão. Para de ser tão atento. Simone levou a mão à mala e retirou do interior um par de luvas de látex, para o caso de encontrar alguma coisa. Também serviam para a proteger de algum germe perdido que por ali andasse. Essa era uma das coi- sas que repetia constantemente junto dos seus alunos. Quaisquer roupas usadas numa cena de crime deviam ser tratadas como material perigoso. Nos últimos anos, já tinha levado para casa mais agentes contaminantes do que queria pensar e só isso já era sufi ciente para que se sentisse feliz por viver sozinha. A última coisa que queria era deixar doente alguém de quem gostasse. Abriu o porta-bagagens do carro e atirou a mala para o seu interior, antes de retirar a sua caixa de ferramentas de médico-legista, que continha tudo aquilo de que precisaria para preservar quaisquer provas em que a polícia pudesse não ter reparado. Gloria inclinou a cabeça, ao mesmo tempo que fi tava o beco. Simone sentiu o estômago apertado, por simpatia. — Estás a lembrar-te de alguma coisa? — Ouvi um rosnido estranho… — A voz dela era baixa. Distante. — Um rosnido? Gloria acenou. — Era profundo e selvagem, mas não era bem como o de um animal. — Era assim? — Jesse emitiu um som fantasmagórico, não humano. Gloria franziu-lhe o sobrolho. — Isso parece o Darth Vader a engasgar-se com um osso de frango. Não. Jesse lançou um olhar indignado a Simone quando esta começou a rir. — Bem, parecia. — Como queiram. Já vão ver se vos continuo a ajudar. Simone abanou a cabeça, antes de agarrar na lanterna e se dirigir para a área onde, de acordo com as fotografi as, estaria o corpo. Havia edifícios em três dos lados e uma sarjeta no centro. O passeio em redor estava partido. Um beco típico, com imenso tráfego à sua volta. Já para não falar no facto de qualquer pessoa nos edifícios em redor poder facilmente olhar pela ja- nela e ver o local onde se encontravam. Isso fazia com que se perguntasse se haveria alguma testemunha que tivesse visto o assassino… Simone olhou de relance para o local onde Jesse deslizava, ao estilo Moonwalk de Michael Jackson, enquanto vigiava o beco e a rua. Tudo o que o rapaz precisava era de um casaco de cabedal vermelho com rebites dourados e uma luva de lantejoulas. — Desculpe-me Sr. Th riller ou Beat It ou que raio de vídeo é que estás tristemente a reviver… Sou só eu ou esta área é demasiado exposta para ter sido um ataque daemon?

Depois de lhe ter dirigido um olhar carregado de ódio, Jesse concor- dou. — Há demasiado movimento por aqui e eles não se teriam importa- do com um pouco de sangue no chão. Aqueles sacanas são uns porcos a comer. — Sim, também estou a pensar o mesmo. Acho que o Tate tinha ra- zão quando disse que ela morreu noutro sítio. Mas as marcas de garras no pescoço… isso não é humano. Se não foi um daemon, então o que é que a matou? — Desculpem lá — ripostou Gloria. — Eu estou aqui. Não se impor- tam? Simone estremeceu perante a sua própria insensibilidade. Normal- mente, ela era muito mais cuidadosa quando estava perto de espíritos. — Desculpa. Jesse aproximou-se de Gloria. — Mas tu lembras-te de ter estado aqui, certo? Gloria acenou. — Ouvi o som e, depois, tentei atravessar a rua para me afastar dele. — Ótimo — avançou Simone. — Lembras-te de mais alguma coisa? Gloria abanou a cabeça. — Eu acho mesmo que não estou morta. Quer dizer, eu sei que passas- te a mão através de mim, há bocado, mas lembro-me de ter visto um filme com a Reese Witherspoon… — Enquanto Estiveres Aí — ofereceu Simone. — Sim, era isso. Toda a gente pensava que a Reese era um fantasma, mas ela estava em coma. Talvez eu também esteja. Simone gostaria muito que fosse esse o caso. Olhou para Jesse, na esperança de que ele a pudesse ajudar a fazer com que Gloria compreendesse que aquilo era definitivo e que não tinha como regressar daquele estado, por muito que todos desejassem o contrário. Jesse dirigiu a Gloria um sorriso compreensivo. — Sei como te sentes. Essa incredulidade não para de te dizer que é apenas um sonho, mas tens de aceitar o facto de que não estás em coma. Simone suspirou enquanto percorria com o olhar o beco vazio. Tudo o que havia ali era um pedaço de papel e um copo do Starbucks amachucado. Mais nada. — Não vejo mesmo nada de útil — disse aos fantasmas. — A polícia deve ter levado tudo. Vamos ter com o Tate, para saber o que os seus conseguiram desenterrar. Quando deu um passo na direção do carro, ouviu um som sibilante atrás de si que a deixou arrepiada. Não estava lá ninguém antes…
— Certamente não nos queres deixar tão cedo. Afinal, ainda agora chegámos… e estávamos à procura de um bom petisco. Simone virou a lanterna para o homem que estava a falar. Correção, não era um homem. Era um daemon. E não estava sozinho."

Fonte: Saída de Emergência

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